Falar sobre prazer solo dentro de um relacionamento pode ajudar a quebrar tabus, ampliar o autoconhecimento e abrir espaço para uma vida sexual mais consciente e prazerosa

Durante muito tempo, a masturbação foi tratada como um assunto privado, ou até como algo que deveria desaparecer quando uma pessoa entrasse em um relacionamento. Mas essa ideia vem sendo questionada. Afinal, estar em uma relação não significa deixar de ter uma relação individual com o próprio corpo.
Uma pesquisa divulgada pelo aplicativo de relacionamento Happn reforça essa mudança de percepção. Realizado em agosto com 1.084 usuários no Brasil, o levantamento mostrou que 34% dos entrevistados consideram o autotoque um hábito legítimo de autocuidado, associado ao alívio do estresse e da carga mental. Entre as mulheres, o percentual chegou a 43%, que relacionam a masturbação à rotina de cuidado com a saúde mental. Entre os homens entrevistados, 33% apontaram a prática como uma válvula de escape especialmente durante a solteirice.
Os números ajudam a colocar uma questão na mesa: se a masturbação faz parte da sexualidade individual, por que ela ainda é tão pouco conversada entre casais?
Masturbação não precisa competir com o relacionamento
Um dos principais mitos sobre o assunto é imaginar que uma pessoa que se masturba necessariamente está insatisfeita com o parceiro ou prefere o prazer solo ao sexo a dois.
A ciência, porém, não sustenta uma explicação tão simples.
Uma revisão sistemática que analisou 22 estudos sobre masturbação solitária e satisfação sexual encontrou resultados variados. Em alguns trabalhos houve associação negativa, enquanto outros não identificaram relação significativa e alguns encontraram associações positivas. Os próprios pesquisadores destacam que fatores como gênero, contexto e características da relação precisam ser considerados.
Ou seja: masturbação não deve ser automaticamente interpretada como sinal de falta de desejo pelo parceiro.
Ela pode estar relacionada a prazer, curiosidade, relaxamento, autoconhecimento ou simplesmente ao desejo de experimentar a própria sexualidade.
Por que casais deveriam conversar sobre masturbação?
Não existe uma regra que obrigue parceiros a contar tudo sobre sua vida íntima. Privacidade continua sendo importante. Mas conversar sobre sexualidade pode criar um espaço de confiança para que cada pessoa consiga falar sobre desejos, limites e preferências sem medo de julgamento.
E existe evidência científica de que essa comunicação importa.
Uma meta-análise que reuniu 93 estudos encontrou uma associação positiva entre comunicação sexual e satisfação sexual e relacional. Em outras palavras, conversar sobre sexo está relacionado a melhores indicadores de satisfação dentro dos relacionamentos.
Por isso, falar sobre masturbação pode ser menos sobre revelar um hábito e mais sobre conhecer melhor a sexualidade de quem está ao seu lado.
O que a masturbação pode ensinar sobre o próprio prazer?
O prazer solo também pode funcionar como uma forma de autoconhecimento.
Cada corpo responde de uma maneira diferente a estímulos, ritmos, toques e fantasias. Conhecer essas respostas pode facilitar a comunicação com o parceiro, especialmente quando a pessoa consegue transformar aquilo que descobriu sobre si em uma conversa sobre preferências.
É justamente nesse ponto que a masturbação compartilhada também aparece na literatura científica.
Um estudo publicado no International Journal of Sexual Health, com 268 pessoas que estavam em relacionamentos, encontrou associação entre a prática recente de masturbação mútua e maior satisfação sexual. O efeito observado foi pequeno e o estudo não prova causalidade, mas os resultados ajudam a questionar a ideia de que masturbação e sexo a dois são necessariamente experiências concorrentes.
Os pesquisadores também apontam que a masturbação mútua pode ampliar o repertório sexual do casal e favorecer a comunicação sobre formas de estímulo e prazer.
Conversar não significa pedir autorização
Existe uma diferença importante entre compartilhar e pedir permissão.
Um relacionamento saudável não precisa transformar a masturbação em uma obrigação de prestar contas. O diálogo pode existir justamente para diminuir inseguranças e evitar interpretações equivocadas.
Por exemplo, dizer:
“Quero conversar sobre como cada um vive o próprio prazer.”
é muito diferente de:
“Por que você faz isso se tem a mim?”
A primeira frase abre espaço para curiosidade e intimidade. A segunda parte de uma acusação.
Quando o assunto é tratado sem cobrança, o casal pode descobrir que existem experiências individuais que não ameaçam a relação e que, em alguns casos, podem até contribuir para uma vida sexual mais aberta e consciente.
E se um dos parceiros sentir ciúme?
Também é possível que o assunto desperte insegurança. Isso não significa necessariamente que exista um problema no relacionamento.
O importante é entender o que está por trás do sentimento.
Pode ser medo de não ser desejado, comparação com outras pessoas, receio de que a masturbação substitua o sexo ou simplesmente falta de informação sobre a sexualidade do parceiro.
Em vez de transformar a conversa em interrogatório, o casal pode tentar entender essas inseguranças.
Perguntas como:
“O que você sente quando pensa nisso?”
“Existe alguma coisa que te deixa inseguro?”
“Você gostaria de compartilhar comigo o que gosta?”
“Existe algo que você gostaria que experimentássemos juntos?”
“Quais são os seus limites em relação a esse assunto?”
podem criar uma conversa muito mais produtiva.
Prazer individual também pode fazer parte da intimidade
Talvez a principal mudança esteja justamente em abandonar a ideia de que, depois que duas pessoas começam um relacionamento, toda experiência sexual precisa necessariamente acontecer entre elas.
Ter intimidade com outra pessoa não elimina a individualidade.
A masturbação pode continuar sendo uma experiência privada. Pode ser compartilhada. Pode fazer parte das preliminares. Ou simplesmente não fazer parte da vida sexual de determinada pessoa.
Não existe uma única maneira correta de viver o prazer.
O que pode fazer diferença para o casal é existir espaço para conversar sobre isso sem vergonha, pressão ou julgamento.
Afinal, casais devem conversar sobre masturbação?
Não existe uma obrigação de que todos os casais precisem conversar sobre masturbação com o mesmo nível de detalhe. Mas criar espaço para falar sobre sexualidade pode fortalecer a comunicação e a intimidade.
A pesquisa sobre comunicação sexual mostra uma associação consistente entre diálogo sobre sexo e satisfação relacional e sexual. E estudos sobre masturbação dentro de relacionamentos indicam que o prazer solo não precisa ser entendido como uma competição com o sexo a dois.
No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja “meu parceiro se masturba?”, mas:
“Nós conseguimos conversar sobre prazer sem medo de sermos julgados?”
Porque, quando existe confiança para falar sobre desejo, limites, fantasias e preferências, a conversa deixa de ser apenas sobre masturbação. Ela passa a ser sobre intimidade, autonomia, autoconhecimento e a liberdade de construir uma vida sexual que faça sentido para os dois.

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