De um ano sem sexo às pressões do casamento e às perguntas deixadas pela psicanálise, estas obras colocam em xeque as regras que aprendemos sobre o que significa ser mulher

E se uma mulher decidisse parar de fazer sexo? E se ela se recusasse a aceitar o casamento nos termos impostos pela família? E se resolvesse olhar para a própria história e perguntar de onde vieram tantas das regras que aprendeu a seguir? É justamente nesse território que entram as chamadas mulheres desobedientes: personagens e autoras que não necessariamente rompem com todas as normas, mas que se permitem questioná-las. A literatura tem sido um dos lugares mais potentes para essa investigação. Em vez de apresentar respostas prontas sobre o que é ser mulher, alguns livros fazem algo mais interessante: colocam em crise as perguntas. Entre as obras que atravessam temas como sexo, desejo, casamento, maternidade, família, obediência e identidade, três chamam atenção: O Hiato – Meu ano sem sexo, de Melissa Febos; Fique comigo, de Ayòbámi Adébáyọ̀; e Análise, de Vera Iaconelli. A seleção integra a curadoria do Obvious Clube, que reúne essas obras no ciclo “Norma”, dedicado justamente às expectativas sociais que definem o que seria uma mulher considerada “normal”.
1. O Hiato – Meu ano sem sexo, de Melissa Febos
Imagine retirar o sexo de uma parte importante da sua vida e observar o que aparece quando ele deixa de ocupar aquele espaço.
É a provocação de O Hiato – Meu ano sem sexo, de Melissa Febos.
A obra faz parte da curadoria do Obvious Clube e aparece no primeiro ciclo da programação, intitulado “A política íntima das emoções”, ao lado de livros que investigam corpo, desejo, trauma, limites e liberdade. A proposta é particularmente interessante porque transforma a ausência de sexo em ponto de partida para uma investigação maior: o que o desejo representa na construção da identidade feminina? A pergunta não é simplesmente se uma mulher faz ou não sexo. É o que acontece quando ela interrompe uma expectativa que parece tão naturalizada. Quando dizer “não” também é uma escolha A sexualidade feminina costuma ser atravessada por expectativas contraditórias. Espera-se que a mulher seja desejável, mas não “disponível demais”. Que tenha vida sexual, mas dentro de determinados códigos. Que saiba seduzir, mas não seja considerada promíscua. Que deseje, mas que o desejo não pareça ameaçar os outros. É justamente esse emaranhado que torna a obra de Febos interessante para uma lista de “mulheres desobedientes”. A desobediência aqui não precisa ser escandalosa. Pode estar simplesmente na decisão de interromper um comportamento esperado e observar a própria experiência sem a obrigação de justificá-la. O trabalho de Febos dialoga com uma produção autobiográfica e ensaística dedicada a examinar as narrativas que moldam a experiência feminina, incluindo questões de consentimento, poder, prazer e identidade.
2. Fique comigo, de Ayòbámi Adébáyọ̀
Se O Hiato questiona as expectativas relacionadas ao desejo e à sexualidade, Fique comigo mergulha em outro território: o casamento, a maternidade e as pressões familiares colocadas sobre uma mulher.
O romance de estreia da escritora nigeriana Ayòbámi Adébáyọ̀ acompanha Yejide e Akin, um casal que se conhece na universidade e decide construir uma relação monogâmica. O problema começa quando quatro anos de casamento passam sem que Yejide consiga engravidar. A família de Akin, pressionada pelas expectativas sociais, apresenta uma segunda esposa ao marido. A situação coloca Yejide diante de ciúme, sofrimento, maternidade e das regras sociais que determinam o valor de uma mulher dentro daquela comunidade.
Quando a maternidade deixa de ser escolha
Um dos aspectos mais fortes do livro é justamente mostrar como a maternidade pode deixar de ser uma decisão individual quando passa a ser tratada como obrigação social.
Yejide não enfrenta apenas a dificuldade de engravidar. Ela enfrenta o significado que outras pessoas atribuem à sua incapacidade de gerar um filho.
A família, o casamento e a comunidade passam a participar de uma decisão que deveria envolver, antes de tudo, a própria mulher. É nesse ponto que Fique comigo entra nesta lista.
A “desobediência” não aparece necessariamente como uma atitude consciente de rebeldia. Ela aparece no próprio conflito entre aquilo que Yejide deseja para sua vida e aquilo que esperam que ela seja.
O romance também coloca em discussão as diferenças entre as expectativas direcionadas a homens e mulheres e o peso das tradições sobre as relações afetivas. A própria editora destaca como o livro explora o conflito entre modernidade e tradições sociais, além das pressões familiares sobre o casal.
3. Análise, de Vera Iaconelli
Se os dois primeiros livros colocam corpo, sexo, casamento e maternidade em primeiro plano, Análise, de Vera Iaconelli, desloca a pergunta para dentro.
Quem somos quando começamos a investigar as histórias que nos fizeram ser quem somos?
Publicado pela Zahar em 2025, o livro é apresentado pela editora como um ensaio memorialístico que entrelaça a história familiar de Iaconelli ao seu próprio processo de análise ao longo da vida. A autora passa por acontecimentos familiares, relações amorosas, maternidade, perdas, sintomas e pela própria formação como psicanalista, costurando memória pessoal e reflexão sobre a psicanálise.
A desobediência de olhar para si.
Há uma forma silenciosa de desobediência que aparece nesse livro: recusar a explicação pronta sobre a própria vida. Em vez de simplesmente aceitar que determinados sentimentos, escolhas ou conflitos são “da personalidade”, Iaconelli investiga suas origens. O processo de análise se torna, nesse sentido, uma ferramenta narrativa. A pergunta deixa de ser apenas: “Por que eu sou assim?” E passa a ser: “Que histórias, relações e expectativas participaram da construção de quem eu me tornei?” A própria descrição da obra destaca essa relação entre memória, história social e psicanálise. O que esses três livros têm em comum? À primeira vista, O Hiato, Fique comigo e Análise parecem falar de coisas completamente diferentes. Um parte da sexualidade. Outro, do casamento e da maternidade.
O terceiro, da psicanálise e da memória. Mas existe uma pergunta atravessando os três: quanto das nossas escolhas é realmente nosso — e quanto foi aprendido como obrigação? É essa pergunta que transforma a lista em algo maior do que uma seleção de livros feministas.
As três obras investigam, cada uma à sua maneira, a distância entre a mulher que existe e a mulher que esperam que ela seja. Afinal, o que é uma “mulher desobediente”? Não necessariamente é aquela que rompe com tudo. Uma mulher pode ser desobediente quando questiona uma regra que sempre pareceu natural. Pode ser quando decide não ser mãe.
Quando decide ser mãe em seus próprios termos.
Quando questiona o casamento.
Quando repensa sua sexualidade.
Quando diz não.
Quando muda de ideia.
Quando deixa de tentar agradar.
Quando percebe que uma escolha que parecia individual também foi moldada por expectativas sociais. A desobediência, portanto, não precisa ser uma performance de rebeldia. Às vezes, ela começa com uma pergunta. “Eu realmente quero isso ou aprendi que deveria querer?”