
Uma reportagem publicada pelo portal Metrópoles trouxe novamente à tona um tema que ainda provoca desconforto em muita gente: a possibilidade de algumas mulheres intensificarem o orgasmo com a estimulação da região anal. A explicação foi dada pela coloproctologista Dra. Aline Amaro, que destacou a grande quantidade de terminações nervosas presentes na região perianal e lembrou que a resposta sexual feminina envolve diferentes partes do corpo.
Mas, para mim, a parte mais importante da reportagem não foi a possibilidade de sentir mais prazer.
Foi o alerta da médica para que o assunto seja tratado sem tabus, mas também sem promessas milagrosas.
Porque talvez o maior problema da sexualidade feminina nunca tenha sido a falta de informação.
Sempre foi o excesso de regras.
Durante décadas disseram às mulheres como elas deveriam se comportar na cama. Depois disseram como deveriam atingir o orgasmo. Mais tarde criaram a obrigação de ser multiorgástica, de gostar de determinadas práticas e de estar sempre disponível para experimentar novidades.
Agora parece que até a forma de sentir prazer ganhou uma cartilha. Mas a ciência segue caminhando na direção oposta.
Segundo o estudo “Women’s Techniques for Pleasure from Anal Touch: Results from a U.S. Probability Sample of Women Ages 18–93”, publicado em 2022 na revista científica PLOS ONE e conduzido pela pesquisadora Debby Herbenick, da Indiana University, não existe um único padrão de prazer anal feminino. A pesquisa identificou que mulheres que relatam prazer com estímulos nessa região costumam preferir formas muito diferentes de toque. Algumas apreciam apenas o contato externo, outras combinam a estimulação com o clitóris ou a vagina e muitas simplesmente não encontram prazer algum nessa prática. E todas essas respostas são consideradas absolutamente normais.
Esse talvez seja o dado mais importante de toda a pesquisa. A sexualidade feminina não funciona em um modelo de “receita pronta”. Ela é construída pela anatomia, pelo contexto emocional, pela confiança no parceiro, pela história de vida e, principalmente, pelo desejo genuíno daquela mulher.
Infelizmente, ainda vivemos em uma cultura que trata o prazer feminino como uma obrigação de desempenho. Se antes a mulher era julgada por sentir desejo, hoje muitas acabam sendo julgadas por não sentir prazer da forma que as redes sociais ou a pornografia sugerem. É uma troca de cobrança, mas continua sendo cobrança. A própria Dra. Aline Amaro faz um alerta importante ao lembrar que a ciência sobre prazer anal feminino ainda é limitada quando comparada a outras áreas da saúde sexual. Ou seja, não existem evidências para afirmar que essa prática aumentará o orgasmo de todas as mulheres, nem que ela seja um caminho obrigatório para uma vida sexual satisfatória. Mais do que isso, a especialista reforça que dor, sangramento, fissuras, hemorroidas, infecções ou qualquer desconforto devem ser avaliados por um médico antes de insistir em qualquer estímulo na região.
Esse cuidado revela uma mensagem muito maior do que parece. Sexo nunca deveria ser uma competição para descobrir quem experimentou mais práticas. Também não deveria existir uma lista de experiências que toda mulher “precisa” viver para ser considerada sexualmente realizada.
O prazer não mora em uma técnica. Não mora em uma posição.
Muito menos em uma região específica do corpo. Ele mora na liberdade. Na comunicação. No consentimento. Na segurança de poder dizer “sim” quando existe vontade e “não” quando simplesmente não faz sentido. Talvez a maior revolução da sexualidade feminina não seja descobrir uma nova forma de atingir o orgasmo. Talvez seja entender, de uma vez por todas, que nenhuma mulher precisa sentir prazer igual à outra para que sua sexualidade seja completa. Porque o corpo feminino não veio com manual. E isso, longe de ser um problema, talvez seja justamente a sua maior beleza.