
Nesta última semana, durante uma conversa entre amigas, ouvi um relato que despertou minha curiosidade.
Ela me disse:
“Percebemos que só conseguimos nos sentir seguros e confortáveis para fazer troca de casal ou um ménage com nossos amigos X e Y. Já tentamos com outros casais, mas não deu certo. Então decidimos que nossa relação continuará aberta apenas para experiências com eles.”
Confesso que, na hora, uma palavra veio imediatamente à minha cabeça: polifidelidade.
Embora ainda seja pouco conhecida pelo público, essa é uma forma de relacionamento não monogâmico consensual que vem sendo estudada pela psicologia, pela sociologia e pela sexologia.
Diferentemente da ideia que muitas pessoas têm sobre a não monogamia, associando-a à ausência de exclusividade, a polifidelidade mostra justamente o contrário: é possível existir fidelidade mesmo quando mais de duas pessoas fazem parte da relação. O conceito surgiu na década de 1970 e foi popularizado pela comunidade Kerista Commune, fundada por John Peltz Presmont, conhecido como “Brother Jud”, em San Francisco, nos Estados Unidos. O grupo defendia relacionamentos afetivos estáveis entre múltiplos parceiros, mas com um detalhe importante: a exclusividade acontecia dentro daquele grupo.
Na prática, funciona assim: três ou mais pessoas estabelecem um acordo de compromisso afetivo e/ou sexual exclusivamente entre si, sem buscar parceiros fora da relação.
Enquanto na monogamia a exclusividade acontece entre duas pessoas, na polifidelidade ela acontece entre todos os integrantes daquele vínculo.
E foi exatamente isso que me fez lembrar da conversa com minha amiga.
Sem conhecer o termo, ela e o parceiro perceberam que não buscavam experiências com qualquer pessoa. Pelo contrário. Sentiam segurança, confiança e conforto apenas com um casal específico, com quem já existia vínculo, amizade e respeito.
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes das relações humanas: elas nem sempre cabem em rótulos prontos.
Segundo a revisão científica “What Do We Know About Consensual Non-Monogamy?”, publicada em 2022 pelos pesquisadores Ryan Scoats e Christine Campbell, pessoas que vivem modelos fechados de não monogamia, como a polifidelidade, frequentemente relatam maior senso de compromisso, cooperação, comunicação intensa e estabilidade emocional.
Mas os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: esses benefícios não acontecem por causa do modelo em si, e sim pela qualidade dos acordos estabelecidos entre as pessoas envolvidas.
Como qualquer relacionamento, a polifidelidade também apresenta desafios. Administrar emoções, lidar com ciúmes, equilibrar o tempo entre diferentes parceiros e manter uma comunicação constante exige maturidade e disposição para o diálogo.
Inclusive, uma meta-análise publicada em 2025, coordenada por Joel Anderson, da La Trobe University, concluiu que não existem evidências consistentes de que pessoas em relacionamentos consensualmente não monogâmicos sejam mais felizes ou mais infelizes do que pessoas monogâmicas. O que mais influencia a satisfação continua sendo a qualidade da comunicação, a confiança, o respeito aos acordos e o apoio emocional.
Talvez essa seja a maior reflexão que esse tema nos oferece.
Penso que durante muito tempo acreditamos que fidelidade significava apenas exclusividade entre duas pessoas. Hoje entendemos que fidelidade pode significar, acima de tudo, cumprir os acordos que foram construídos de forma livre e consciente entre quem escolheu compartilhar a vida.
No fim das contas, independentemente do modelo de relacionamento, acredito que existe uma regra que nunca deveria mudar: o acordo precisa ser consensual para todos os envolvidos. Quando há respeito, honestidade, diálogo e liberdade para que cada pessoa expresse seus limites e desejos, o relacionamento tem muito mais chances de ser saudável. Porque o amor não deveria ser medido pelo formato da relação, mas pela forma como as pessoas cuidam umas das outras.