Pesquisa internacional com mais de 46 mil mulheres mostra que prazer e curiosidade estão entre os motivos associados ao consumo de pornografia e coloca a sexualidade feminina no centro da discussão

Quando o assunto é pornografia, ainda é comum que o imaginário popular associe o consumo de conteúdo adulto principalmente aos homens. A realidade, porém, é mais diversa. Mulheres também consomem pornografia, e uma grande pesquisa internacional ajuda a entender que não existe uma única explicação para esse comportamento.
Publicado em 2025 no Journal of Behavioral Addictions, o estudo Motives for pornography use and women’s sexual wellbeing: Insights from a 42-country study analisou dados de 46.874 mulheres de 42 países. O objetivo foi investigar não apenas a frequência do consumo, mas principalmente as motivações que levam mulheres a procurar pornografia e como essas razões se relacionam com o bem-estar sexual.
Entre os motivos investigados estavam prazer sexual, curiosidade, fantasia, busca por alívio do tédio, insatisfação sexual, distração emocional, redução do estresse e autoconhecimento.
Por que mulheres consomem pornografia?
A resposta encontrada pela pesquisa é menos simples do que a ideia de que o consumo de conteúdo adulto acontece apenas por falta de sexo ou de um parceiro. Entre as participantes, o prazer sexual e a curiosidade apareceram como motivações particularmente relevantes. O estudo encontrou associação entre esses motivos e indicadores de bem-estar sexual, como maior desejo sexual e menos problemas relacionados ao funcionamento sexual.
Isso ajuda a ampliar a conversa sobre a sexualidade feminina: assistir a um conteúdo adulto pode estar relacionado à busca pelo próprio prazer, à curiosidade sobre sexualidade ou ao interesse em conhecer diferentes possibilidades dentro do próprio universo sexual.
Curiosidade também faz parte da sexualidade
A curiosidade aparece como uma das dimensões avaliadas pelo estudo. Para algumas mulheres, o conteúdo adulto pode funcionar como uma forma de conhecer novas ideias, descobrir preferências ou simplesmente explorar aquilo que desperta interesse.
É importante, entretanto, não transformar essa associação em uma relação de causa e efeito. Como a pesquisa foi transversal e baseada em autorrelato, ela mostra relações entre as variáveis, mas não permite afirmar que consumir pornografia provoca maior desejo ou melhora o funcionamento sexual. Os próprios autores defendem a realização de estudos longitudinais para compreender melhor essa relação.
Fantasia e autoconhecimento entram nessa conversa
A pesquisa também avaliou o consumo motivado por fantasia e autoconhecimento. A escala utilizada pelos pesquisadores investigou, por exemplo, se a pessoa procura pornografia para explorar fantasias ou descobrir aquilo que desperta sua excitação. Esse dado é especialmente relevante quando se fala sobre sexualidade feminina, historicamente cercada por expectativas e tabus.
Conhecer os próprios desejos não significa necessariamente querer reproduzir tudo aquilo que aparece em uma produção adulta. Fantasia e realidade são experiências diferentes. Uma pessoa pode se sentir atraída por determinada situação em uma fantasia sem desejar vivenciá-la na vida real. Por isso, consumir conteúdo adulto não deve ser interpretado automaticamente como um roteiro para a vida sexual.
O motivo do consumo pode ser mais importante do que o consumo em si
Um dos pontos centrais do estudo é justamente esse. Os pesquisadores identificaram diferenças importantes de acordo com a motivação para consumir pornografia. Quando o consumo estava relacionado ao prazer sexual ou à curiosidade, houve associação com maior desejo sexual e menos problemas de funcionamento sexual. Já quando a motivação estava relacionada à falta de satisfação sexual no relacionamento, houve associação com mais problemas de funcionamento sexual.
Isso não significa que a pornografia seja responsável pelos problemas. A própria pesquisa ressalta que não é possível estabelecer a direção dessa relação. Uma mulher pode recorrer à pornografia porque já está insatisfeita sexualmente, por exemplo, e não necessariamente ficar insatisfeita por consumir pornografia. A diferença é importante.
Mulheres em relacionamentos também aparecem na pesquisa
Outro dado interessante é que o estudo não trata a pornografia como uma experiência exclusiva de pessoas solteiras. A amostra incluiu mulheres com diferentes situações de relacionamento, e os pesquisadores observaram que mulheres que estavam em relacionamentos apresentavam, em média, maior desejo sexual do que aquelas que não estavam. Isso reforça uma ideia importante: estar em um relacionamento não elimina a sexualidade individual.
O consumo de pornografia, assim como a masturbação, pode assumir diferentes significados dentro de uma relação. Para algumas pessoas, é uma experiência privada; para outras, pode ser compartilhada com o parceiro; e, para outras, simplesmente não faz parte da vida sexual. Não existe um único comportamento que represente todas as mulheres.
Pornografia feminina ainda é cercada de tabus
Apesar de o acesso ao conteúdo adulto ser cada vez mais fácil, a sexualidade feminina continua sendo atravessada por julgamentos sociais. Mulheres podem ser cobradas tanto por demonstrar desejo quanto por admitir que possuem fantasias, curiosidades ou interesse por pornografia. É justamente por isso que pesquisas que analisam as próprias motivações das mulheres ajudam a tornar a discussão mais complexa.
Em vez de perguntar simplesmente “mulheres assistem pornografia?”, a ciência começa a fazer uma pergunta mais interessante: “Por que elas assistem?” E a resposta pode envolver prazer, curiosidade, fantasia, autoconhecimento, hábito, distração ou diferentes combinações desses fatores.
Consumo de pornografia não é sinônimo de uso problemático
Outro cuidado importante é não colocar todo consumo de pornografia na mesma categoria. A literatura científica diferencia o uso de pornografia de padrões considerados problemáticos, nos quais a pessoa pode experimentar perda de controle, sofrimento significativo ou consequências negativas na vida cotidiana.
Uma pesquisa internacional com mais de 82 mil participantes de 42 países, por exemplo, encontrou diferentes níveis de indicadores de uso problemático dependendo da escala utilizada, mostrando também que não existe uma única medida capaz de resumir a experiência de todos os consumidores.
Portanto, falar sobre pornografia de maneira responsável exige separar consumo, frequência, motivação e possíveis consequências.
Mais do que pornografia, o estudo fala sobre liberdade sexual
O estudo internacional ajuda a deslocar a discussão de uma pergunta carregada de preconceitos — “por que mulheres assistem pornografia?” — para uma perspectiva mais ampla sobre a sexualidade. Mulheres podem sentir desejo, ter fantasias, buscar prazer, sentir curiosidade e querer conhecer melhor a própria sexualidade.
E reconhecer isso não significa defender que pornografia seja necessariamente positiva ou negativa para todas as pessoas. A principal contribuição da pesquisa está justamente em mostrar que o contexto e a motivação importam.
Quando uma mulher procura conteúdo adulto por curiosidade ou prazer, isso aparece associado a determinados indicadores de bem-estar sexual. Quando o consumo está relacionado à insatisfação sexual, o cenário encontrado é diferente. E, como os dados são correlacionais, essas relações não devem ser interpretadas como causa e efeito.
No fim, talvez a questão mais importante não seja descobrir se mulheres consomem pornografia. Elas consomem. A pergunta que merece mais espaço é o que esse consumo representa para cada uma delas — e como falar sobre sexualidade feminina sem transformar desejo, curiosidade e fantasia em motivo de vergonha.