
Falar sobre liberdade sexual deveria significar também falar sobre responsabilidade sexual.
Nos últimos anos, conceitos como relacionamento aberto, troca de casais, poliamor e outras formas de não monogamia consensual deixaram de ser assuntos restritos a determinados grupos e passaram a fazer parte das conversas sobre comportamento, afetividade e relacionamentos. E, se estamos falando de liberdade para escolher como queremos viver nossos afetos, precisamos falar também sobre a liberdade de escolher como vamos cuidar da nossa saúde.
É justamente aí que entra uma conversa que considero indispensável: a importância do uso de preservativos para quem decide entrar no meio liberal ou experimentar relações com múltiplos parceiros, sempre entre adultos e com consentimento de todos os envolvidos.
Não deveria existir vergonha em falar sobre camisinha.
Não deveria ser constrangedor perguntar se a outra pessoa fez testes recentemente, conversar sobre prevenção ou estabelecer que determinada prática só acontecerá com proteção.
Na verdade, isso deveria ser entendido como parte do acordo.
Os dados mais recentes mostram por que essa conversa é necessária. A PeNSE 2024, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, mostrou que 30,4% dos estudantes de 13 a 19 anos entrevistados já haviam tido relação sexual. Entre aqueles que já tinham iniciado a vida sexual, 61,7% disseram não ter usado preservativo na primeira relação.
Embora esses dados sejam sobre adolescentes e não sobre o meio liberal, eles revelam um problema maior: ter informação sobre sexualidade não significa necessariamente transformar conhecimento em comportamento preventivo.
E isso vale para qualquer geração.
Outro dado importante vem da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE. Entre pessoas de 18 a 29 anos que haviam tido relações sexuais nos 12 meses anteriores, apenas 36,5% disseram utilizar preservativo em todas as relações. E, entre aqueles que não usavam ou não usavam sempre, a principal justificativa era a confiança no parceiro.
É justamente aqui que precisamos desconstruir uma ideia perigosa: confiança não substitui prevenção.
Você pode confiar na pessoa que está ao seu lado e, ainda assim, usar preservativo.
Você pode conhecer alguém há anos e continuar conversando sobre saúde sexual.
Você pode estar em um relacionamento aberto, em uma relação monogâmica ou solteiro e continuar precisando cuidar da sua saúde.
No meio liberal, essa responsabilidade ganha ainda mais importância porque pode existir uma rede maior de parceiros e, consequentemente, mais possibilidades de exposição às infecções sexualmente transmissíveis.
Isso não significa enxergar o sexo como algo perigoso.
Significa entender que liberdade e prevenção podem — e devem — caminhar juntas.
A Organização Mundial da Saúde também vem alertando para a redução do uso de preservativos entre adolescentes em diversos países. Uma análise do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), publicada pela OMS/Europa em 2024, com mais de 242 mil adolescentes de 15 anos, identificou queda no uso de preservativos entre 2014 e 2022.
O cenário deveria nos fazer pensar.
Estamos vivendo uma época em que temos mais acesso à informação do que nunca. Podemos pesquisar sobre ISTs em segundos, encontrar serviços de testagem, conhecer diferentes métodos de prevenção e conversar sobre sexualidade com muito mais liberdade do que gerações anteriores.
Então por que ainda é tão difícil falar sobre camisinha?
Talvez porque ainda exista uma mistura de vergonha, confiança excessiva e a falsa sensação de que “isso não vai acontecer comigo”.
Mas IST não escolhe estado civil, orientação sexual, idade ou estilo de relacionamento.
E prevenção não deveria ser interpretada como falta de confiança.
Pelo contrário.
Para mim, estabelecer um acordo de proteção é uma das formas mais maduras de cuidar de todas as pessoas envolvidas.
Quem pretende experimentar o meio liberal precisa entender que liberdade não significa ausência de regras.
Significa poder escolher as próprias regras com responsabilidade.
Conversar sobre preservativos.
Conhecer métodos de prevenção.
Fazer testagem quando indicada.
Respeitar os limites dos parceiros.
Não pressionar ninguém a abrir mão da proteção.
E, principalmente, compreender que o consentimento precisa existir não apenas para a relação, mas também para as condições em que ela acontece.
Se alguém diz: “Só me sinto confortável usando preservativo”, isso não deveria ser interpretado como frescura, desconfiança ou falta de experiência.
É um limite. E limite se respeita.
Acredito que as novas gerações têm uma oportunidade enorme de transformar a maneira como falamos sobre sexo. Podemos deixar para trás aquela cultura em que conversar sobre prevenção era considerado constrangedor e construir uma sexualidade mais consciente, na qual prazer, liberdade, consentimento e cuidado não sejam tratados como coisas separadas.
Porque, no final das contas, ser livre também é poder dizer “sim” para aquilo que queremos e “não” para aquilo que coloca nossa saúde ou nossos limites em risco.
O meio liberal pode envolver diferentes acordos, diferentes configurações e diferentes formas de viver a sexualidade. Não existe um único modelo.
Mas existe algo que deveria ser universal:respeito, consentimento e responsabilidade.
Porque liberdade sexual sem cuidado pode deixar de ser liberdade muito rapidamente.
E se queremos que as novas gerações tenham mais liberdade para escolher como amar e se relacionar, precisamos ensiná-las também que cuidar de si e do outro faz parte dessa escolha.