
Existe uma ideia bastante difundida de que homem é essencialmente visual. Uma mulher aparece bem vestida, demonstra sensualidade, muda o cabelo, usa determinado perfume e pronto: estaria criado o estímulo necessário para despertar o desejo masculino.
E, convenhamos, muitas mulheres sabem exatamente como usar a própria sensualidade para chamar atenção. Mas será que é só isso? Eu diria que não.
Uma reportagem publicada pelo Metrópoles, na coluna Pouca Vergonha, em 16 de junho de 2026, pela jornalista Gabriela Francisco, trouxe justamente uma provocação interessante ao explicar como acontece a ereção e por que a paixão pode ser um fator fundamental para a resposta sexual masculina.
Segundo a reportagem, a sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo explica que a resposta sexual masculina não depende exclusivamente de estímulos físicos. Emoções, vínculos afetivos, contexto psicológico e envolvimento com a outra pessoa também podem participar do processo. E isso desmonta um pouco aquela velha imagem do homem como uma máquina permanentemente pronta para o sexo. Porque não é.
O pênis pode até participar da resposta sexual, obviamente, mas o desejo não começa necessariamente nele. Começa no cérebro. Começa na imaginação. Começa em uma conversa. Em uma lembrança. Em uma voz. Em uma troca de olhares. Em uma expectativa. Em uma conexão emocional.
E aqui está uma parte que acho particularmente interessante: existem homens para os quais o estímulo visual simplesmente não é suficiente. A fantasia, a imaginação, determinados sons, palavras, situações ou contextos podem ter um papel importante na excitação.
Isso também ajuda a entender por que algumas pessoas desenvolvem preferências e fetiches bastante específicos. E antes que alguém torça o nariz para isso, é importante separar duas coisas: ter uma preferência ou fantasia não significa que exista algo errado com a pessoa. O que importa é que qualquer experiência entre adultos seja consensual, segura e respeitosa.
Talvez por isso seja tão simplista dizer que “homem gosta de mulher bonita”.
Claro que a atração física existe. Ela pode ser um componente importante do desejo. Mas reduzir a sexualidade masculina à visão é ignorar a enorme participação do cérebro e das emoções.
Uma mulher pode ser extremamente sensual e, ainda assim, não despertar desejo em determinado homem. Da mesma maneira, alguém que inicialmente não chamaria tanta atenção visual pode despertar um interesse enorme depois de uma conversa, de uma conexão emocional ou de uma fantasia construída na imaginação. E isso acontece porque desejo não é uma fotografia. É uma experiência.
A própria reportagem do Metrópoles mostra como a expectativa de que o homem esteja sempre pronto para o sexo é um mito. Existem situações em que o envolvimento emocional com uma pessoa pode interferir na resposta sexual em relação a outra.
Isso é particularmente interessante porque estamos acostumados a pensar que a ereção é uma espécie de “termômetro automático” do desejo. Não necessariamente. Uma pessoa pode gostar de alguém e não ter uma resposta sexual naquele momento. Pode estar ansiosa, cansada, preocupada, emocionalmente distante ou simplesmente não estar excitada.
E também pode acontecer o contrário: um estímulo aparentemente pequeno pode despertar uma resposta intensa porque encontrou exatamente aquilo que aquela pessoa considera excitante. Talvez seja por isso que conhecer o parceiro seja tão importante. Não basta perguntar “o que você gosta?”. É preciso descobrir como aquela pessoa deseja. O que desperta sua imaginação? O que faz com que ela se sinta desejada? O que cria expectativa? O que desperta curiosidade? O que faz com que ela queira estar naquele momento? No fim, talvez a grande provocação da reportagem seja justamente essa: o homem não é apenas um par de olhos diante de um corpo bonito.
Existe um cérebro processando estímulos. Existe uma história. Existem emoções. Existem fantasias. Existem experiências anteriores. Existe personalidade. Existe vínculo. E existe, principalmente, uma enorme diversidade entre indivíduos. Então, sim: muitos homens são bastante visuais. Mas talvez a pergunta mais interessante não seja “o homem é visual?”. Talvez seja: o que acontece dentro da cabeça dele depois que ele olha? Porque, no fim das contas, talvez seja ali que o desejo realmente comece.