
Talvez a pergunta não seja por que elas estão sozinhas, mas por que tantas passaram a entender que estar acompanhada não pode significar carregar ainda mais peso
Você já reparou como ainda existe uma certa surpresa quando uma mulher diz que está feliz solteira?
Parece que, para muita gente, a solteirice feminina continua sendo tratada como uma sala de espera. Como se a mulher estivesse ali aguardando o próximo relacionamento, o próximo casamento, o próximo “homem certo” para finalmente começar uma vida de verdade.
Mas talvez alguma coisa tenha mudado.
Uma pesquisa divulgada pelo happn em março de 2026 mostrou que 62% das mulheres entrevistadas disseram estar felizes solteiras, contra 42% dos homens. Entre mulheres de 26 a 35 anos, o índice chegou a 76%, e 75% delas apontaram autoconhecimento e crescimento pessoal como benefícios da solteirice.
É claro que uma pesquisa realizada por um aplicativo de relacionamentos não representa todas as mulheres. Mas o dado ajuda a revelar uma transformação cultural que parece cada vez mais evidente: estar solteira deixou de significar necessariamente estar à procura de alguém para preencher um espaço vazio.
E eu acho isso muito interessante.
Talvez algumas mulheres estejam simplesmente cansadas de entrar em relacionamentos nos quais precisam desempenhar mais um papel.
Porque vamos combinar? A sociedade já espera demais das mulheres.
Esperamos que sejam profissionais competentes, mães presentes, filhas cuidadosas, amigas disponíveis, parceiras amorosas, organizadoras da casa, administradoras da família e, de preferência, que façam tudo isso sorrindo.
Existe ainda uma carga mental enorme por trás dessas tarefas: lembrar consultas, organizar compromissos, pensar nas compras, planejar refeições, cuidar de filhos, acompanhar familiares, administrar a casa e perceber aquilo que precisa ser feito antes mesmo que alguém peça.
O Ministério das Mulheres, com base na pesquisa Sem Parar 2025 – O trabalho e a vida das mulheres 5 anos após o início da pandemia, divulgou que 43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico e 48% cuidam de alguém sem remuneração. Mesmo quando as tarefas são compartilhadas, as mulheres continuam assumindo a maior parte delas.
Então talvez exista uma pergunta que precisamos começar a fazer:
se a mulher já está sobrecarregada sozinha, por que ela escolheria um relacionamento que aumenta essa sobrecarga?
É aí que entra algo que considero fundamental: o desejo feminino de ser bem tratada.
Não estou falando de ser colocada em um pedestal, receber presentes caros ou viver uma espécie de conto de fadas.
Estou falando de parceria.
De ter alguém que também percebe o que precisa ser feito.
Alguém que cuida.
Que escuta.
Que divide.
Que não transforma a mulher em mãe, secretária, terapeuta, cozinheira, cuidadora e responsável emocional pelo relacionamento.
Talvez muitas mulheres não estejam desistindo do amor. Talvez estejam desistindo da ideia de que, para ter amor, precisam aceitar uma relação que lhes custa a própria paz.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Uma mulher pode querer se apaixonar, construir uma família, casar, namorar ou simplesmente viver uma relação leve. Mas ela também pode olhar para a própria vida e pensar: “Se for para ter alguém ao meu lado, essa pessoa precisa acrescentar — não me dar mais trabalho.”
Isso não significa que estar solteira seja sempre maravilhoso.
A própria pesquisa do happn mostra que a solidão continua sendo apontada como uma das principais dificuldades da solteirice, e a pressão social para estar em um relacionamento ainda existe.
Ou seja, não estamos falando de uma geração de mulheres que não sente falta de carinho, companhia ou intimidade.
Estamos falando de mulheres que talvez tenham aprendido que solidão e relacionamento ruim não são as únicas alternativas.
É possível estar solteira e ter amigos, família, projetos, carreira, hobbies, viagens, sonhos e uma vida afetiva construída de diferentes maneiras.
E, principalmente, é possível estar solteira sem considerar que existe alguma coisa errada com você.
Acho que essa é uma das grandes mudanças do nosso tempo.
Durante muito tempo, ensinamos às mulheres que elas precisavam ser escolhidas.
Agora, cada vez mais mulheres parecem estar entendendo que elas também escolhem.
Escolhem quem entra.
Escolhem quem fica.
Escolhem o que aceitam.
E também escolhem sair quando percebem que determinada relação não oferece respeito, parceria ou segurança emocional.
Talvez por isso o amor esteja passando por uma espécie de filtro.
Não é mais apenas: “Eu gosto dessa pessoa?”
Também é:
“Como eu me sinto quando estou com essa pessoa?”
“Eu consigo descansar nessa relação?”
“Posso ser eu mesma?”
“Essa pessoa divide a vida comigo ou apenas ocupa espaço nela?”
“Eu me sinto cuidada ou estou sempre cuidando?”
E talvez essa última pergunta seja uma das mais importantes.
Porque uma das maiores conquistas da autonomia feminina não deveria ser aprender a fazer tudo sozinha.
Deveria ser poder escolher não carregar tudo sozinha.
Se uma mulher encontra um relacionamento no qual pode respirar, descansar, dividir responsabilidades, rir, conversar e ser cuidada também, maravilhoso.
Mas se ela não encontra, estar solteira pode ser uma escolha perfeitamente legítima.
No fim, não acho que as mulheres estejam necessariamente deixando de acreditar no amor.
Acho que estão ficando menos dispostas a aceitar qualquer coisa em nome dele.
E, sinceramente, talvez isso seja uma boa notícia.
Porque o amor não deveria ser mais uma obrigação na lista de tarefas de uma mulher.
Amar deveria ser um lugar onde também fosse possível descansar.