
Dormir ao lado do parceiro enquanto cada um permanece olhando para a própria tela tornou-se uma cena comum na vida moderna. Mas especialistas alertam que esse hábito pode ter consequências que vão além do tempo gasto no celular. Um conjunto de estudos recentes tem investigado como o excesso de estímulos digitais pode estar relacionado à diminuição da libido, ao cansaço emocional e à desconexão entre casais.
Embora o desejo sexual seja influenciado por diversos fatores, como hormônios, qualidade da relação, estresse, saúde mental e estilo de vida, pesquisadores observam que a hiperconectividade pode contribuir para o enfraquecimento da intimidade.
Uma das principais consequências apontadas pelos especialistas é a redução do tempo dedicado à convivência. Conversas, demonstrações de afeto e momentos de conexão acabam sendo substituídos por redes sociais, plataformas de streaming, jogos e outras formas de entretenimento digital.
Além disso, o uso excessivo de telas, especialmente durante a noite, está associado à pior qualidade do sono. Dormir mal pode aumentar o cansaço, alterar a produção hormonal e impactar diretamente o desejo sexual.
Saúde mental também entra na equação
Outro fator observado pela ciência é a relação entre uso problemático de smartphones e sintomas de ansiedade e depressão. Um estudo conduzido por Vanessa Fuzeiro e colaboradores, publicado em 2022 no Journal of Sexual Medicine, encontrou associação entre o uso excessivo de smartphones e redes sociais e pior funcionamento sexual.
Segundo os autores, o impacto sobre a saúde mental pode influenciar a satisfação com a vida sexual e os relacionamentos.
Uso problemático de pornografia pode estar ligado a dificuldades sexuais
A relação entre pornografia e sexualidade também tem sido alvo de pesquisas. Em uma revisão sistemática publicada em 2026, intitulada “Pornography Consumption and Male Sexual Dysfunction: A Systematic Review”, o pesquisador Zisimos Zacharopoulos, da Universidade de Atenas, e sua equipe analisaram estudos sobre o tema e concluíram que os resultados ainda são heterogêneos.
No entanto, os autores observaram que o uso problemático da pornografia apresentou associação mais consistente com dificuldades sexuais do que a simples frequência de consumo.
A revisão foi publicada no periódico científico Advances in Experimental Medicine and Biology.
Outra meta-análise, publicada em 2024 por Fatemeh Abdi e colaboradores, no Journal of Addictive Diseases, mostrou que os efeitos da pornografia sobre a satisfação sexual variam de acordo com fatores individuais, frequência de consumo e contexto do relacionamento.
Tempo excessivo de celular também pode afetar a função sexual masculina
Um estudo prospectivo publicado em 2023 no periódico Andrologia, liderado por Cinislioglu e colaboradores, observou que homens com maior tempo diário de tela apresentavam maior gravidade de ejaculação precoce adquirida.
Os pesquisadores ressaltam que são necessários mais estudos para compreender melhor os mecanismos envolvidos, mas os resultados sugerem uma possível influência dos hábitos digitais na saúde sexual masculina.
O problema pode ser aquilo que as telas substituem
Os especialistas destacam que a ciência ainda não afirma que celulares ou pornografia sejam, isoladamente, a causa da baixa libido. O que os estudos sugerem é que o excesso de estímulos digitais pode desencadear uma combinação de fatores, como pior qualidade do sono, aumento da ansiedade, fadiga mental e redução do tempo de conexão entre parceiros. Em outras palavras, o problema talvez não esteja apenas nas telas, mas naquilo que elas acabam substituindo: presença, descanso, conversas e intimidade.
Em meio a esse cenário, alguns pesquisadores já discutem a chamada “recessão sexual” observada em gerações mais jovens, marcada pela redução da frequência sexual e pelo aumento do tempo dedicado aos ambientes digitais. O fenômeno vem sendo estudado em países como Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul.