
A forma como nos relacionamos mudou muito nas últimas décadas. Se antes a monogamia era vista como o único caminho possível, hoje diferentes modelos afetivos ganharam espaço nas conversas, nas redes sociais e até mesmo nas pesquisas acadêmicas. Entre eles, a não monogamia consensual se apresenta como uma proposta que promete mais liberdade, autonomia e autenticidade.
A não monogamia, enquanto estrutura de relacionamento, traz consigo a ideia de que é possível amar sem que exista a lógica da posse. Seus defensores falam sobre a importância da autonomia individual, da construção de acordos personalizados e da busca pela realização dos próprios desejos sem a expectativa de que uma única pessoa seja responsável por suprir todas as necessidades afetivas e sexuais do parceiro.
A ciência, de fato, mostra que existem benefícios percebidos por quem escolhe esse modelo. Estudos apontam que pessoas em relações não monogâmicas tendem a investir mais na comunicação, conversando de forma explícita sobre expectativas, limites e ciúmes. Há também relatos de maior satisfação sexual e de uma valorização da individualidade dentro das relações.
Essas observações aparecem em diferentes trabalhos científicos, entre eles a revisão publicada em 2022 na revista Current Opinion in Psychology e o artigo “A Narrative Review of the Dichotomy Between the Social Views of Non-Monogamy and the Experiences of Consensual Non-Monogamous People”, publicado em 2024 pelo pesquisador David L. Rodrigues, na revista Archives of Sexual Behavior.
Um aspecto interessante levantado pela literatura é que a não monogamia foi apresentada à geração atual como uma promessa de liberdade e autenticidade. No entanto, os estudos mostram que ela não elimina problemas humanos universais, como ciúme, insegurança, necessidade de pertencimento e medo da perda. Em muitos casos, essas questões apenas aparecem de maneira mais explícita.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores lições trazidas pela ciência: nenhum modelo de relacionamento é capaz de garantir felicidade por si só.
Pessoalmente, compreendo a proposta da não monogamia e considero importante que existam diferentes possibilidades de viver os afetos. No entanto, não me considero adepta desse tipo de relacionamento. Vejo que alguns problemas, quando associados e mal administrados, podem acabar produzindo sofrimento e adoecimento para as pessoas envolvidas.
Pesquisadores destacam alguns desafios frequentemente relatados por pessoas que vivem experiências não monogâmicas. Entre eles estão os ciúmes e as inseguranças, que continuam existindo mesmo em relações consensuais. Também aparecem o desgaste emocional e a dificuldade de administrar múltiplos vínculos, exigindo tempo, energia e disponibilidade afetiva.
Outro ponto observado pelos especialistas é que abrir uma relação dificilmente resolve problemas que já existiam. Ressentimentos, incompatibilidades e falhas na comunicação podem, inclusive, se intensificar. Há ainda os conflitos entre parceiros e metamores, disputas por atenção e reconhecimento, além do preconceito social enfrentado por quem foge dos modelos tradicionais.
Isso não significa que a monogamia seja superior à não monogamia. Da mesma forma, também não significa que a não monogamia seja uma solução mais evoluída para os relacionamentos contemporâneos.
Na minha visão, somos seres em constante transformação. Talvez em determinados momentos da vida estejamos abertos a certas experiências e, em outros, não. E tudo bem. Não acredito que precisamos nos rotular o tempo inteiro ou transformar nossas escolhas afetivas em identidades imutáveis.
No fim das contas, o que parece realmente sustentar uma relação saudável não é o número de pessoas envolvidas, mas a qualidade do vínculo construído entre elas. Seja na monogamia ou na não monogamia, continuam sendo indispensáveis o diálogo, o respeito, a honestidade e a liberdade para revisar acordos conforme a vida muda e as pessoas também mudam.
Porque amar continua sendo um exercício de construção e nenhuma estrutura, sozinha, é capaz de substituir isso.