Confesso que achei que já tinha visto de tudo na internet. Mas, recentemente, uma reportagem publicada pelo portal Metrópoles chamou a atenção ao mostrar uma tendência que vem ganhando espaço em comunidades masculinas: homens colocando gelo nos testículos na expectativa de aumentar a testosterona, melhorar a libido e ter ereções mais potentes.
A minha primeira reação foi simples: isso nem deveria ser cogitado.
E não porque toda novidade seja necessariamente ruim, mas porque existe uma diferença enorme entre curiosidade e evidência científica.
A própria reportagem faz uma ressalva importante. Embora exista uma explicação biológica para o fato de os testículos permanecerem fora da cavidade abdominal, justamente para manterem uma temperatura inferior à do restante do corpo e favorecerem a produção de espermatozoides, isso não significa que aplicar gelo na região aumente a testosterona ou melhore o desempenho sexual.
Segundo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), manter a região excessivamente aquecida pode prejudicar a produção de espermatozoides, motivo pelo qual roupas íntimas muito apertadas são frequentemente desencorajadas para homens que enfrentam dificuldades de fertilidade. Entretanto, essa recomendação está relacionada ao conforto térmico, e não ao uso de gelo como estratégia para melhorar a função sexual.
Além disso, a reportagem cita a médica Azadeh Ovaici, que explica justamente essa diferença: os testículos funcionam melhor em temperaturas um pouco menores que a corporal, mas isso não valida práticas extremas nem comprova benefícios do resfriamento intenso.
Esse detalhe faz toda a diferença.
Vivemos uma época em que vídeos curtos e depoimentos pessoais são frequentemente tratados como prova científica. Basta um influenciador afirmar que determinada técnica mudou sua vida para que milhares de pessoas passem a reproduzi-la sem qualquer questionamento.
Mas um relato individual não equivale a uma pesquisa.
Até o momento, não existem estudos clínicos robustos demonstrando que colocar gelo diretamente no escroto aumente os níveis de testosterona, melhore a ereção ou potencialize a libido de forma segura e eficaz. Pelo contrário: a exposição excessiva ao frio pode provocar desconforto, queimaduras por frio e lesões nos tecidos sensíveis da região.
Se existe uma lição que essa história deixa, talvez ela vá muito além do gelo.
Ela nos lembra que nem tudo o que aparece em um portal de notícias, em um vídeo nas redes sociais ou em um fórum da internet deve ser levado como verdade absoluta. Uma reportagem pode apresentar um fenômeno que está acontecendo, mas isso não significa que a prática descrita seja recomendada ou respaldada pela ciência.
Por isso, antes de transformar qualquer tendência em hábito, vale a pena fazer algumas perguntas simples: há pesquisas sobre isso? Quem conduziu esses estudos? Foram publicados em revistas científicas? Há consenso entre especialistas?
E, principalmente, converse com um profissional de saúde. Se a preocupação é baixa libido, dificuldade de ereção, alterações hormonais ou fertilidade, um urologista ou endocrinologista poderá investigar as causas reais e indicar tratamentos baseados em evidências e não em modismos da internet.
Na maioria das vezes, os caminhos mais eficazes continuam sendo os menos espetaculares: dormir bem, praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada, controlar doenças como diabete e hipertensão, evitar o tabagismo, reduzir o consumo excessivo de álcool e realizar consultas médicas periódicas. Talvez esses hábitos não rendam milhões de visualizações nas redes sociais.
Mas, diferentemente de muitas tendências virais, eles têm algo muito mais importante: ciência.

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