Confesso que, quando li sobre o conceito de monogamia unilateral, minha primeira reação foi de estranhamento.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 4 de abril de 2026, assinada por Gina Cherelus, do The New York Times, a monogamia unilateral descreve um modelo em que apenas um dos parceiros pode manter relações afetivas ou sexuais com outras pessoas, enquanto o outro permanece exclusivo. O tema voltou ao debate após aparecer no documentário “Por Dentro da Machosfera”, da Netflix, que mostra como influenciadores ligados ao movimento red pill apresentam esse arranjo como uma dinâmica supostamente “natural” entre homens e mulheres.
É justamente essa palavra, natural, que merece ser questionada.
Porque aquilo que chamamos de “natural” quase sempre carrega uma enorme carga cultural.
Antes de continuar, quero deixar algo muito claro.
Existem casais que vivem relações assim por livre escolha, consciente, negociada e consentida. Se duas pessoas adultas decidem construir esse tipo de acordo de forma equilibrada, isso faz parte da autonomia que cada indivíduo deve ter sobre sua própria vida afetiva.
O problema começa quando essa dinâmica deixa de ser uma escolha e passa a ser apresentada como um dever feminino ou um direito masculino. É aí que deixamos de falar sobre liberdade. E começamos a falar sobre poder. Foi exatamente isso que mais me chamou atenção ao assistir “Por Dentro da Machosfera”. O documentário não trata apenas de relacionamentos. Ele mostra como uma parcela da internet vem ensinando meninos e jovens homens a enxergar as mulheres como adversárias, propriedades ou prêmios a serem conquistados.
Não por acaso, a série “Adolescência”, também da Netflix, provocou um debate semelhante. Embora seja uma obra de ficção, ela evidencia como algoritmos, redes sociais e influenciadores podem participar da formação emocional de adolescentes, oferecendo respostas simples para problemas complexos e transformando frustrações em discursos de ressentimento. Talvez o maior desafio da nossa geração não seja discutir qual modelo de relacionamento é o melhor. Monogamia. Não monogamia. Poliamor. Relacionamento aberto. Swing. Nada disso me parece ser o centro da questão. O verdadeiro debate é outro. Que tipo de homens estamos formando? Porque um menino que cresce acreditando que mulheres existem para servi-lo poderá reproduzir essa lógica em qualquer modelo de relacionamento. Da mesma forma, um homem educado para respeitar autonomia, consentimento e igualdade será capaz de construir relações saudáveis, sejam elas monogâmicas ou não. É por isso que gosto tanto de uma das reflexões de Simone de Beauvoir. Em “O Segundo Sexo”, publicado em 1949, a filósofa francesa escreveu sua frase mais conhecida: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” Mais do que falar sobre mulheres, Beauvoir estava propondo uma reflexão sobre como a sociedade molda comportamentos por meio da educação, da cultura e das expectativas sociais. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos homens. Ninguém nasce machista. Ninguém nasce misógino. Esses comportamentos também são aprendidos. São ensinados. São reforçados. E, felizmente, também podem ser desaprendidos. Quando um adolescente passa horas consumindo conteúdos que associam masculinidade ao controle, ao domínio e à superioridade sobre as mulheres, não estamos apenas discutindo namoro. Estamos discutindo formação humana. Estamos discutindo cidadania. Estamos discutindo democracia. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja como serão os relacionamentos do futuro. A pergunta é: como serão os adultos que estamos criando hoje? Quero acreditar que filhos criados em famílias onde existe diálogo, respeito às diferenças, liberdade para fazer perguntas e espaço para conversar sobre afeto terão mais facilidade para construir relações saudáveis, independentemente do modelo que escolham viver. Não porque serão monogâmicos. Nem por que serão não monogâmicos. Mas, porque terão aprendido que ninguém deve amar por obrigação. Ninguém deve permanecer em uma relação por medo. E ninguém deveria exercer poder sobre o corpo, os sentimentos ou a liberdade de outra pessoa.
Mais do que ensinar nossos jovens a conquistar parceiros, talvez devêssemos ensiná-los a construir vínculos. Mais do que falar sobre masculinidade, precisamos falar sobre empatia. Mais do que defender um único modelo de relacionamento, precisamos defender relações baseadas em consentimento, reciprocidade e igualdade. No fim das contas, o que realmente me preocupa não é a existência da monogamia unilateral. É a possibilidade de uma geração inteira acreditar que amar significa ter privilégios sobre o outro. Talvez a verdadeira revolução não esteja em escolher entre monogamia e não monogamia. Talvez esteja em formar pessoas com pensamento crítico, mente aberta, consciência social, livres da misoginia e capazes de compreender que a liberdade só faz sentido quando pertence a todos. Porque amar nunca deveria ser um exercício de poder. Deveria ser, antes de tudo, um exercício de respeito.

 

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