Com a popularização de debates sobre não monogamia e relações abertas, cresce a ideia de que flexibilizar acordos afetivos pode ser alternativa para casamentos em crise. Mas abrir a relação sem elaborar conflitos anteriores pode apenas mudar o cenário do problema.

“Abrir o casamento para salvar a relação” virou pauta recorrente nas redes sociais, podcasts e rodas de conversa. Recentemente, um vídeo publicado pelo jornal Folha reacendeu o debate ao trazer reflexões da psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian, fundadora do projeto Amores Possíveis, sobre o verdadeiro significado de “salvar um casamento”. Afinal, abrir a relação é uma solução real ou apenas uma tentativa de adiar conflitos mais profundos?
Antes de discutir monogamia, poliamor ou relações abertas, especialistas apontam que uma pergunta anterior costuma ser negligenciada: o que exatamente significa salvar esse casamento para cada pessoa envolvida?
A provocação feita por Carol Tilkian desloca o debate do formato para a função. Salvar uma relação não significa necessariamente evitar separação ou manter uma estrutura a qualquer custo, mas entender se ainda existe desejo mútuo de reconstrução.
Sob a ótica da psicologia relacional, crises conjugais frequentemente emergem de desgastes acumulados: desconexão emocional, ressentimentos, rotina excessiva, falhas de comunicação e incompatibilidades que deixaram de ser verbalizadas.
O psicólogo John Gottman, referência internacional em terapia de casal e fundador do The Gottman Institute, argumenta que relações duradouras dependem menos de ausência de conflito e mais da capacidade de repará-lo. Em seus estudos, Gottman identifica padrões destrutivos conhecidos como “quatro cavaleiros do apocalipse relacional”: crítica constante, desprezo, defensividade e bloqueio emocional.
Nesse contexto, abrir o casamento sem antes enfrentar esses padrões pode funcionar como colocar uma nova decoração em uma casa com infiltração estrutural.
A terapeuta Esther Perel, autora de The State of Affairs, também destaca que crises amorosas frequentemente não dizem respeito apenas à falta de amor, mas ao choque entre estabilidade e transformação. Segundo ela, casais precisam renegociar continuamente quem são e o que desejam conforme envelhecem, mudam de carreira, ampliam repertório e redefinem prioridades.
É justamente nesse ponto que o debate sobre abrir relações ganha complexidade.
Existe uma fantasia contemporânea de que não monogamia seria uma solução mais “evoluída” para frustrações conjugais. Mas especialistas e praticantes experientes costumam afirmar o oposto: relações abertas exigem níveis ainda mais sofisticados de comunicação, autorresponsabilidade emocional e negociação de limites.
Abrir um casamento não resolve automaticamente diferenças de desejo, inseguranças ou ressentimentos antigos. Muitas vezes, inclusive, intensifica essas questões.
Conviver com desejos diferentes talvez seja um dos maiores desafios das relações adultas.
Desejo não é estático. Ele muda com idade, contexto, experiências, maternidade, estresse, autoestima, rotina e transformações subjetivas. A ideia de que um parceiro deve suprir integralmente todas as dimensões do desejo humano, sexual, intelectual, social, emocional e existencial, parece cada vez menos sustentável.
Esse reconhecimento, porém, não implica que toda relação precise ser aberta.
Para alguns casais, experiências liberais pontuais e altamente negociadas, como fantasias compartilhadas, acordos sexuais específicos ou maior flexibilização erótica, podem representar caminhos intermediários mais coerentes do que uma abertura relacional ampla e imediata.
A diferença está menos na prática e mais na elaboração.
Abrir uma relação “para salvar” um casamento pode se tornar problemático quando a decisão nasce de desespero, medo de abandono ou tentativa de compensar desconexões mais profundas.
Sem base sólida, liberdade vira sobrecarga.
Por outro lado, quando há confiança, diálogo consistente e desejo genuíno de revisar acordos, alguns casais encontram em formatos mais flexíveis novas formas de intimidade e continuidade relacional.
No fim, a pergunta talvez não seja “abrir ou não abrir?”, mas: esse casal consegue conversar honestamente sobre suas diferenças sem transformar desejo em ameaça?
Salvar um casamento não é preservar sua forma original como peça de museu. É entender se existe disposição real para reconstruí-lo em uma versão mais compatível com quem essas pessoas se tornaram. Isso exige maturidade para reconhecer limites, abrir mão de certas expectativas e aceitar uma verdade pouco romântica, porém libertadora: nenhum parceiro dará conta de preencher todas as “caixinhas” do desejo humano ao longo de uma vida inteira.
Talvez salvar um casamento esteja menos em encontrar um modelo ideal e mais em construir uma comunicação orientada para resolução, não para punição.
No amor adulto, diferenças não são necessariamente sentenças de fracasso. Quando nomeadas e negociadas, podem ser matéria-prima para reinvenção.

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