E vocês ficaram sabendo dessa fofoca?
Porque enquanto a gente está aqui discutindo inflação, transporte público, buraco na rua e se o vereador vai ou não responder o WhatsApp, na Alemanha tem vereador querendo transformar o universo swinger em política de turismo. Sim. Você leu certo.
O personagem dessa história é Julien Ferrat, integrante do conselho municipal de Mannheim, na Alemanha. E, antes que alguém pense que a internet aumentou a história no caminho, vamos aos fatos: ele realmente defende que Mannheim crie um espaço inspirado no Village Naturiste de Cap d’Agde, na França, conhecido pelo naturismo e também pelo turismo ligado ao universo swinger. E Ferrat não parece estar tratando isso como uma piada. Tudo começou com uma “viagem de estudos”
Em 2025, Ferrat organizou uma viagem que chamou oficialmente de “viagem de formação política” para Cap d’Agde. O objetivo? Segundo o próprio vereador, estudar o modelo turístico do local. E olha que interessante: o argumento dele não é simplesmente “vamos criar um lugar para adultos se divertirem”. A tese é econômica.
Em publicação oficial do município de Mannheim, Ferrat argumentou que o Village Naturiste poderia servir como modelo de turismo de nicho, capaz de atrair visitantes estrangeiros e gerar receitas para os cofres públicos. Ele chegou a defender a criação, em Mannheim, de um “FKK-Swinger-Paradies”, algo como um paraíso naturista-swinger, com capacidade estimada de 1 mil a 2 mil pessoas.
Ou seja: aparentemente alguém olhou para turismo, infraestrutura e arrecadação e pensou: “E se a gente colocasse o swing nessa planilha?” É uma estratégia de marketing territorial que certamente não aparece em muitos manuais de administração pública. E aí a história ficou ainda mais curiosa. Em agosto de 2026, Ferrat resolveu dar mais um passo. Ele anunciou a intenção de realizar uma festa para o público swinger na prefeitura de Mannheim. Sim, dentro do Rathaus.
A justificativa? Aproximar políticos e cidadãos. A prefeitura, entretanto, não parece ter compartilhado do entusiasmo. Segundo o Staatsanzeiger Baden-Württemberg, Ferrat ainda não havia apresentado o pedido oficial necessário, nem fornecido informações básicas como data e espaço pretendido. A administração afirmou que precisava desses dados para sequer avaliar a proposta. Cerca de 50 pessoas já teriam demonstrado interesse, segundo o vereador. E aqui começa a parte que parece roteiro de comédia política. Porque existe uma pergunta que provavelmente atravessou a cabeça de muita gente na prefeitura: “Tá, mas isso está no nosso calendário como evento institucional ou eu estou tendo um surto?” A proposta é séria? Sim. Mas isso não significa que seja simples. É importante separar as coisas. O debate não precisa ser reduzido a “que absurdo!” ou “que moderno!”. Existe uma questão legítima por trás da proposta: até onde pode ir uma política pública de turismo de nicho? Cidades investem em gastronomia, festivais, turismo religioso, turismo LGBTQIA+, turismo esportivo, eventos culturais, praias, parques temáticos e uma infinidade de segmentos específicos.
Então surge a pergunta: se existe um público adulto interessado em determinado tipo de turismo, uma cidade pode explorar economicamente esse mercado? Em tese, a discussão econômica existe. Mas uma coisa é reconhecer a existência de um mercado. Outra é transformar um espaço público municipal em local destinado a uma atividade íntima de adultos. E aí entram questões de legislação, segurança, zoneamento, privacidade, responsabilidade administrativa, utilização de patrimônio público e, principalmente, qual é exatamente o papel de uma prefeitura nessa história? A própria prefeitura de Mannheim, até o momento, não autorizou a festa. E tem mais: Ferrat já vinha provocando o sistema. Essa não é a primeira vez que o vereador chama atenção. Em 2025, o próprio Amtsblatt de Mannheim publicou a convocação para sua viagem a Cap d’Agde. O texto apresentava o local como referência de desenvolvimento turístico e questionava o que Mannheim poderia aprender com o modelo francês. Então talvez a melhor maneira de entender Ferrat seja esta: Ele não está simplesmente tentando organizar uma festa. Ele está tentando transformar uma atividade de nicho em estratégia de desenvolvimento econômico e turístico.
A festa na prefeitura é apenas a parte que fez a história viralizar. Agora vamos trazer a fofoca para o Brasil
Porque é impossível olhar para essa história e não pensar: E se fosse aqui? Imagine um vereador brasileiro chegando à Câmara Municipal e dizendo: “Senhores, tenho uma proposta inovadora para incrementar o turismo da cidade.” Todo mundo abre o bloco de notas. “Precisamos criar um polo naturista voltado ao turismo adulto.” Silêncio. Alguém pergunta: “Mas qual seria o nome do projeto?”
E provavelmente surgiriam 47 requerimentos, 12 memes, três CPIs e uma guerra civil no grupo da família.
Brincadeiras à parte, o Brasil já possui uma indústria enorme de turismo, entretenimento e lazer voltada para adultos. Portanto, a discussão sobre turismo de nicho não é absurda. O que seria muito mais difícil de imaginar é o poder público assumindo diretamente a organização de determinados espaços e eventos. E aí está a questão interessante.
Afinal, até onde vai à liberdade individual e começa a responsabilidade pública? Eu acho que essa história é engraçada justamente porque ela mistura duas coisas que normalmente aparecem separadas: política e vida privada. Ferrat está tentando apresentar a questão como economia. A prefeitura precisa enxergar como administração pública. E a sociedade provavelmente está enxergando como fofoca. E talvez todos estejam certos, cada um olhando por uma janela diferente.
Porque uma cidade pode querer atrair turistas. Pode querer desenvolver novos mercados. Pode querer incentivar negócios privados. Mas isso não significa que todo mercado precise virar política pública.
Existe uma diferença enorme entre permitir que adultos façam escolhas privadas dentro da lei e usar dinheiro, estrutura ou espaços públicos para promover determinada atividade.
E essa diferença merece ser discutida com seriedade.
Mesmo quando a história rende uma ótima piada. Agora quero saber de vocês: Se uma cidade brasileira criasse um espaço público voltado ao turismo naturista e adulto, como estratégia para movimentar a economia e atrair turistas, vocês achariam uma ideia inovadora ou um completo delírio administrativo?
E mais: se existisse um espaço privado, regulamentado e destinado exclusivamente a adultos, você teria coragem de frequentar?
Porque uma coisa é comentar no Instagram: “Eu jamais!” Outra é aparecer um anúncio: “Novo destino turístico da cidade: inaugurado neste sábado.” Aí eu quero ver quem vai sustentar o discurso. No fim das contas, talvez a pergunta mais interessante não seja “você faria?”. É: até onde uma democracia deve ir para atender públicos de nicho, e onde deveria simplesmente dizer: isso pode existir, mas não precisa ser responsabilidade da prefeitura?
E vocês, o que acham? Se fosse no Brasil, funcionaria?

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