Entre o culto ao shape, a solidão moderna e a busca desesperada por conexão

Academia virou ponto de encontro, dieta virou critério amoroso e o “shape” passou a definir desejo. O termo “fitsexual” cresce nas redes sociais e revela muito mais do que uma simples preferência estética: mostra como os relacionamentos modernos estão mudando.
Existe um novo perfil circulando pelas redes sociais e pelas academias: pessoas que fazem do universo fitness praticamente uma identidade afetiva. São os chamados “fitsexuais”, termo usado para definir quem valoriza intensamente corpos atléticos, rotina saudável, disciplina física e parceiros com o mesmo estilo de vida.
Embora o nome pareça indicar uma orientação sexual, especialistas afirmam que não é exatamente isso. O “fitsexual” funciona mais como um comportamento social ligado ao desejo, à aparência e à cultura fitness que domina plataformas como Instagram e Tiktok
Segundo reportagens recentes do O Tempo, muitos “fitsexuais” enxergam academia como ambiente de paquera, analisam hábitos alimentares antes de iniciar relações e associam disciplina corporal a sucesso e atração.
A influenciadora fitness Karol Rosalin comentou em entrevista ao Portal UAI noticias disse que algumas “pessoas chegam a avaliar percentual de gordura e rotina de treinos antes mesmo de se envolver romanticamente.”
Mas talvez o fenômeno diga menos sobre músculos e mais sobre carência emocional.
Atualmente, inúmeras formas de se relacionar parecem surgir a cada semana: fitsexual, sapiossexual, ecossexual, relações abertas, não monogamia, “gym crush”, namoro low profile e tantas outras nomenclaturas que viralizam diariamente. Em muitos casos, parece existir uma tentativa constante de encontrar um nicho, uma comunidade ou um grupo onde seja possível se sentir pertencente.
No fundo, talvez isso revele algo bastante humano: pessoas tentando se conectar em uma sociedade cada vez mais individualista.
O sociólogo Zygmunt Bauman, autor do livro Modernidade Líquida, já dizia que as relações contemporâneas se tornaram “líquidas” — rápidas, frágeis e facilmente descartáveis. Em um mundo acelerado, onde tudo parece temporário, muitas pessoas acabam transformando gostos, estéticas e estilos de vida em formas de identidade e conexão emocional.
A cultura fitness entra exatamente nesse cenário. O corpo passa a funcionar quase como um currículo social: disciplina, beleza e performance viram símbolos de valor afetivo. E as redes sociais ajudam a alimentar isso diariamente através de fotos perfeitas, rotinas inalcançáveis e padrões estéticos cada vez mais rígidos.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para riscos importantes. A obsessão pelo “shape perfeito” pode gerar ansiedade corporal, superficialidade nos relacionamentos, comparação constante e até dificuldade de construir vínculos mais profundos.
Ainda assim, seria injusto demonizar o fenômeno. Muitas pessoas realmente encontram na academia autoestima, saúde mental, motivação e até relacionamentos saudáveis. O problema talvez não esteja no treino ou no corpo, mas quando a aparência se torna o único critério possível de desejo e aceitação.
No fim das contas, o crescimento dos “fitsexuais” mostra muito sobre o nosso tempo: uma geração hiperconectada, mas emocionalmente solitária; cercada de curtidas, mas ainda procurando pertencimento.
E talvez seja exatamente por isso que, independentemente da forma como cada pessoa escolha amar, se relacionar ou se conectar, exista uma regra que continua sendo a mais importante de todas: se respeite, respeite o outro e seja feliz.

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