
Reportagem do Metrópoles reacende o debate sobre um tema pouco conhecido, mas estudado pela sexologia: a aversão sexual, condição que vai além da falta de desejo e pode afetar a saúde do relacionamento.
“Meu parceiro nunca mais me procura.” “Só de pensar em sexo já me sinto desconfortável.” “Será que acabou o amor?”
Essas perguntas costumam aparecer quando a vida sexual de um casal esfria. A primeira explicação que vem à cabeça costuma ser a famosa baixa libido. Mas especialistas alertam que, em alguns casos, o problema pode ser outro: a chamada aversão sexual.
O tema voltou a ganhar destaque após uma reportagem publicada pelo Metrópoles, que ouviu especialistas para explicar uma condição ainda pouco conhecida pelo público, mas amplamente discutida na sexologia clínica.
Diferentemente da baixa libido, no qual a pessoa simplesmente apresenta redução do desejo sexual, a aversão sexual envolve uma resposta emocional intensa diante da possibilidade de qualquer contato íntimo.
Segundo a sexóloga e pesquisadora Rosemary Basson, da Universidade da Colúmbia Britânica, a aversão sexual é caracterizada por sentimentos de medo, ansiedade, repulsa ou evitação relacionados ao sexo.
Na prática, isso significa que a pessoa pode sentir desconforto apenas ao imaginar uma relação sexual, evitar beijos, carícias ou qualquer situação que possa levar à intimidade. Em alguns casos, o simples toque do parceiro desperta angústia, náusea ou ansiedade.
Não é apenas falta de vontade
A ciência faz questão de diferenciar a aversão sexual da baixa libido.
Enquanto quem apresenta pouco desejo pode, eventualmente, aceitar ou até aproveitar uma relação sexual, pessoas com aversão tendem a evitar completamente esse tipo de contato, justamente porque ele desperta sofrimento.
Essa distinção é tão importante que o antigo “Transtorno de Aversão Sexual” chegou a fazer parte do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV). O diagnóstico foi retirado da versão mais recente, o DSM-5, não porque a condição deixou de existir, mas porque pesquisadores concluíram que ela frequentemente se sobrepunha a outros quadros clínicos, como ansiedade, traumas e dores durante o sexo.
Ainda assim, o fenômeno continua sendo investigado e reconhecido por especialistas em medicina sexual.
O que pode provocar a aversão sexual?
Ao contrário do que muitos imaginam, não existe uma única causa.
Segundo a literatura científica, fatores biológicos, psicológicos e relacionais costumam atuar em conjunto.
Entre os principais estão experiências traumáticas, abuso sexual, educação extremamente repressiva em relação ao sexo, dores durante a relação sexual, como vaginismo, dispareunia e endometriose, além de ansiedade, depressão e conflitos persistentes dentro do relacionamento.
Uma revisão conduzida pela pesquisadora Kristen Jozkowski e colaboradores mostra que pessoas que vivenciaram violência sexual apresentam maior probabilidade de desenvolver dificuldades relacionadas ao desejo e à evitação da atividade sexual.
Quais são os sinais?
Os especialistas descrevem alguns comportamentos que merecem atenção:
– evitar beijos e demonstrações de carinho por medo de que evoluam para sexo;
– inventar desculpas frequentes para evitar relações;
– sentir ansiedade ou pânico antes da intimidade;
– experimentar repulsa ao contato sexual;
apresentar tensão muscular, aceleração dos batimentos cardíacos ou até choro diante da possibilidade de uma relação.
Homens e mulheres podem desenvolver aversão sexual, embora grande parte das pesquisas ainda tenha sido realizada com mulheres.
Existe tratamento?
A boa notícia é que sim.
Como a condição costuma ter múltiplas causas, o tratamento também é multidisciplinar. Dependendo da origem do problema, pode envolver psicoterapia, terapia sexual, terapia de casal, tratamento para ansiedade ou depressão, fisioterapia pélvica e acompanhamento médico.
O diálogo continua sendo o primeiro passo
Especialistas alertam que muitos casais interpretam o afastamento sexual como desinteresse ou falta de amor, quando, na verdade, pode existir um sofrimento silencioso por trás desse comportamento.
Por isso, antes de tirar conclusões precipitadas, vale a pena observar se a dificuldade envolve apenas uma redução do desejo ou se existe medo, ansiedade ou repulsa diante da intimidade.
A ciência reforça que nem toda ausência de desejo é igual. Enquanto algumas pessoas vivem bem com baixa libido ou se identificam no espectro da assexualidade, outras experimentam sofrimento intenso relacionado ao sexo e podem se beneficiar de acompanhamento profissional.
Reconhecer essa diferença é um passo importante para evitar julgamentos, fortalecer o diálogo e buscar ajuda quando necessário.