
Confesso que, às vezes, me faço essa pergunta.
Com a proximidade do Dia dos Namorados, enquanto as vitrines se enchem de corações e declarações de amor, é impossível ignorar o outro lado da realidade. Vivemos em uma época em que os números da violência contra a mulher continuam alarmantes, em que muitas mães enfrentam o abandono paterno e seguem sozinhas sofrendo discursos misóginos, alimentados por movimentos incel e red pill, ganharam espaço nas redes sociais.
Diante desse cenário, fica cada vez mais difícil para muitas mulheres olhar para os relacionamentos com ingenuidade. E talvez seja justamente por isso que tantas estejam mais seletivas, mais cautelosas e menos dispostas a aceitar qualquer tipo de amor.
Porque amor não pode ser sinônimo de medo.
Amor não pode ser sinônimo de sobrecarga.
E amor definitivamente não deveria exigir que uma mulher abra mão da própria dignidade para manter uma relação.
Por muito tempo, fomos ensinadas a acreditar que era melhor estar mal acompanhadas do que sozinhas. Felizmente, essa lógica vem mudando. Hoje, muitas mulheres descobriram que a própria companhia pode ser um lugar seguro e feliz.
Mas, apesar de todas as decepções coletivas que atravessamos, eu ainda acredito nos relacionamentos.
Acredito porque seria injusto permitir que a violência de alguns homens apagasse a existência daqueles que amam, respeitam, cuidam e constroem parcerias verdadeiras.
Acredito porque, embora os discursos mais extremos façam muito barulho nas redes sociais, eles não representam a totalidade das relações humanas.
E acredito porque os dados mostram que a felicidade continua profundamente ligada às nossas conexões afetivas. Segundo o Ipsos Happiness Report 2026, divulgado em março de 2026 pelo instituto internacional Ipsos, cerca de 80% dos brasileiros se declararam felizes, e os vínculos afetivos aparecem entre os fatores mais associados a essa sensação de bem-estar.
Talvez o amor moderno exija mais discernimento do que romantização.
Talvez seja preciso estabelecer limites mais claros, reconhecer sinais de alerta e entender que reciprocidade não é luxo, é requisito básico.
Mas, ainda assim, vale a pena.
Vale a pena se relacionar quando existe respeito.
Vale a pena amar quando existe admiração.
Vale a pena construir quando existe parceria.
Porque, no fundo, somos seres feitos para viver em comunidade. Precisamos de amizade, afeto, pertencimento e conexão. Não fomos feitos para enfrentar a vida completamente sozinhos.
Então, neste Dia dos Namorados, meu desejo é simples: que a gente ame mais, mas ame melhor. Que sejamos mais leves, mais felizes e mais conscientes. Que ninguém aceite menos do que merece. E que, apesar de todos os desafios do nosso tempo, a gente continue acreditando que relacionamentos saudáveis ainda são possíveis.
Porque são.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de esperança que ainda existem.