O imaginário popular gosta de resumir o relacionamento liberal à frase: “quem ama não tem ciúme”. Mas essa ideia, além de simplificar demais algo complexo, é falsa. O ciúme existe em relações monogâmicas, abertas, poliamorosas, e até na solteirice. A questão não é não sentir, mas o que fazemos com o que sentimos.
Jacques Lacan dizia que “todo desejo nasce da falta” e o ciúme, no fundo, é isso: o medo da falta. O medo de não ser suficiente, de perder o lugar no afeto do outro, de ser esquecido ou substituído. Quando duas pessoas abrem a relação ou entram no meio liberal, essa falta fica mais visível. E é justamente aí que aparece o verdadeiro tamanho da maturidade emocional. Mas quando o ciúme deixa de ser uma resposta humana e passa a virar controle, a linha se rompe.
Quando o ciúme vira transtorno: o caso Debbie Wood
Em 2014, a britânica Debbie Wood foi diagnosticada com Síndrome de Otelo, também chamada de ciúme delirante. Ela obrigava o noivo a passar no detector de mentiras por ter ido à loja de conveniência. Tudo o que ele fazia precisava ser provado. Esse caso foi citado no programa Linhas Cruzadas como exemplo de quando o ciúme ultrapassa o campo emocional e entra no campo da patologia. Nesse cenário, como explicou o filósofo Luiz Felipe Pondé, o ciúme pode ser uma ferramenta de controle uma forma de tentar impedir que o outro seja exposto ao mundo e às possibilidades reais de escolha. Ou seja: não é o amor que sustenta o vínculo, é o medo. E no meio liberal?
Existe uma frase frequente entre casais liberais:
“Ciúme não é proibido. Controlar o outro, sim.”
Porque o ciúme é uma emoção, e emoções não se escolhem; mas comportamentos, sim. No liberalismo consensual, há três pilares claros:
Autonomia, cada pessoa é dona de si.
Consentimento, nada acontece sem acordo.
Comunicação, o que não se fala, vira veneno.
Sem esses pilares, o que se chama de “relação liberal” vira só:
Fuga do diálogo, tentativa de salvar relação falida, ou repetição de padrão de abandono.
E nesse ponto, Lacan nos dá outro insight:
“Amar é dar o que não se tem para alguém que não o é.”
Ou seja, amar é aceitar que o outro jamais será plenamente nosso e isso é saudável. Relacionamento não é prisão, nem tomada 110V para “plug and play emocional”. Mas se eu sinto ciúme, quer dizer que não posso ter relação liberal? Não. Sentir não é o problema. O problema é o que você faz com o que sente.
Ciúme saudável é:
Dizer que algo te incomodou e buscar ajustar juntos.
Reconhecer vulnerabilidades.
Negociar limites.
Ciúme tóxico é:
Solicitar senha do celular, localização e prova de amor.
Criar regras para restringir o outro.
Viver em estado de vigilância.
Controle não é cuidado, é medo com roupa de afeto.
Como navegar o ciúme no relacionamento liberal? Pergunte o que exatamente eu temo?
Nomeie sensações, não culpas. Peça segurança emocional, não obediência. Busque experiências de forma gradual. Lembre-se: relação liberal não é corrida, é trajetória. Conclusão: liberdade começa dentro, não fora Não existe relacionamento liberal sem autoconhecimento.
Não existe liberdade sem responsabilidade.
Não existe amor sem vulnerabilidade.
Se o seu desejo é explorar novas formas de conexão, corpo e prazer, faça isso com: clareza, escuta, limite, e cuidado. Porque o maior erro não é sentir ciúme, é usar o ciúme para aprisionar.

 

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