Na última semana, um evento chamou atenção nacional: ocorreu em Pinhalzinho (SP), cidade de cerca de 15 mil habitantes, o primeiro encontro oficial de trisais do Brasil. Trinta e nove famílias poliamorosas vindas de diversas regiões do país reuniram-se numa pousada, aproveitando piscina, churrasco, música e muita conversa entre pessoas que romperam com o modelo tradicional para celebrar vínculos afetivos múltiplos. A reportagem do G1 acompanhou o evento e trouxe em detalhes o clima, as histórias e o significado desse encontro pioneiro.
Mais do que um evento social, esse tipo de confraternização representa uma busca por visibilidade, reconhecimento e pertencimento. A reunião permite que pessoas que vivem amores plurais, triângulos, redes profundas, troquem experiências, criem laços afetivos entre si e fortaleçam o senso de comunidade, algo especialmente valioso diante de um mundo que ainda impõe o modelo tradicional como o “natural”.
Poliamor: não é só sexo, é conexão
Um equívoco comum é reduzir o poliamor a meras aventuras sexuais. Mas para muitos praticantes, ele vai além: é investimento emocional, distribuição de afeto, compromisso e compartilhamento de vida. Participar de comunidades e encontros ajuda a reivindicar esse sentido mais amplo, construindo redes de apoio que aliviam os dilemas existenciais, os preconceitos e as crises que podem aparecer no percurso amoroso plural.
Tais encontros ecolocalizam pessoas que já lidam com sentimentos complexos, ciúme, tempo, logística, expectativas. Falar com quem entende seus dilemas, compartilhar estratégias e simplesmente se ver parte de algo coletivo pode trazer suporte psicológico e afetivo que nenhuma relação isolada oferece.
Quantos topam um relacionamento a três e por que isso importa
Dados acadêmicos ajudam a situar essa prática no panorama global. Em um estudo publicado em Desire, Familiarity, and Engagement in Polyamory, 1 em cada 6 pessoas (≈ 16,8 %) declarou ter desejo de engajar-se no poliamor, e cerca de 1 em cada 9 (≈ 10,7 %) afirmou já ter vivido uma experiência poliamorosa em algum momento da vida.
Outra revisão da literatura sobre não-monogamia consensual estima que entre 3 % e 7 % da população na América do Norte está envolvida atualmente em relações consensuais não monogâmicas
Esses números mostram que o poliamor e suas variações não são raridades marginais, há uma fatia significativa da população com interesse ou vivência nesse modelo relacional. E esse “interesse latente” parece crescer com o tempo, impulsionado por novos discursos de liberdade, sexualidade e amor.
O amor moderno e o valor da comunidade
O encontro em Pinhalzinho simboliza algo importante: amor plural não é ato solitário. Ele floresce quando existe visibilidade, escuta e espaços de troca. Desde Simone de Beauvoir, que apontou como a mulher é historicamente moldada por papéis sociais impostos, até Zygmunt Bauman, cuja teoria da modernidade líquida fala de vínculos frágeis e transitórios, podemos ver que as relações de hoje desafiam padrões fixos.
O poliamor pode ser uma resposta contemporânea a esse mundo líquido: uma tentativa de viver vínculos mais complexos, democratizar o afeto e construir ligações que resistem à solidão normativa. Se há fragilidades, sim, elas também nos mostram que amar plural exige coragem, diálogo e rede de apoio.
Em última instância, encontros como o dos trisais servem não apenas para celebrar o que já existe, mas para reivindicar direitos (como reconhecimento legal, registro de filhos, acesso a benefícios compartilhados) e para afirmar que todas as formas de amar, quando consentidas e respeitosas, merecem existir.
Você já considerou que amar a mais de um pode ser tão legítimo quanto amar um só? Se sim, esse tipo de evento mostra: você não está sozinho, há uma comunidade pronta para acolher, aprender e crescer junta.

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