
Esses dias, enquanto assistia televisão em um canal fechado, fui surpreendida por um episódio de reality show que abordava um tipo de relacionamento que, até então, eu desconhecia: o chamado relacionamento “hinger” ou, mais corretamente, relacionamento dobradiça (hinge, no termo original em inglês). O título me intrigou. Afinal, em um universo onde os formatos de afeto estão em constante expansão, surgem cada vez mais conceitos que nos convidam a repensar o amor e a convivência.
Curiosa, resolvi mergulhar no tema e fazer um levantamento mais aprofundado sobre o que esse modelo relacional representa. A seguir, compartilho o que descobri e o que penso sobre esse “novo”, entre aspas, formato de se relacionar, que pode ser tão antigo quanto o afeto humano, mas que só agora começa a ganhar nome, visibilidade e, principalmente, compreensão.
Em resumo, é um relacionamento aberto, mas com reflexões; o modelo tradicional de casamento, baseado em exclusividade afetiva e sexual, tem sido cada vez mais questionado por novas gerações, que buscam estruturas relacionais mais abertas, flexíveis e adaptadas à realidade contemporânea. Nesse contexto, os relacionamentos abertos ganham espaço, e entre suas variações, um formato em particular chama atenção: o chamado relacionamento “hinge”, ou relacionamento dobradiça.
O que é um relacionamento hinge?
O termo “hinge” (dobradiça, em inglês) vem do universo do poliamor e descreve uma configuração em que uma pessoa está emocional ou sexualmente envolvida com duas (ou mais) pessoas que **não estão envolvidas entre si. Essa pessoa, a dobradiça, atua como elo entre os parceiros, sendo o centro de uma conexão que forma uma espécie de “V”.
Diferentemente de um trisal (em que todos se relacionam entre si), no hinge, os dois parceiros se conectam apenas por meio da figura central. Esse modelo exige um alto grau de maturidade emocional, responsabilidade afetiva e habilidade de comunicação.
Possibilidades e desafios no casamento hinge
Apesar de incomum no imaginário tradicional de casamento, o modelo hinge é uma alternativa viável para casamentos não-monogâmicos, sobretudo quando uma das partes deseja expandir afetos e experiências com outras pessoas sem dissolver a união principal. Entre os benefícios potenciais, destacam-se:
* Liberdade com vínculo: A pessoa no hinge mantém laços afetivos com dois parceiros sem precisar romper ou suprimir sentimentos.
* Crescimento pessoal: O modelo pode permitir maior autoconhecimento, descoberta de desejos e fortalecimento da autonomia emocional.
* Honestidade nas relações: Quando bem estruturado, evita traições e mentiras, pois se baseia em acordos claros e consentimento mútuo.
Por outro lado, os desafios mais comuns incluem:
* Gerenciamento do tempo e energia emocional;
* Ciúmes e inseguranças entre os parceiros;
* Desequilíbrio emocional na dobradiça, que pode se sentir sobrecarregada ao mediar afetos distintos;
* Falta de referência social, já que o modelo ainda é pouco discutido no senso comum.
Casamento e hinge: é possível?
Sim, é possível. Cada vez mais casais optam por redefinir o que significa estar casado. O casamento hinge pode ser formalizado legalmente com um dos parceiros, enquanto o outro mantém vínculos afetivos e/ou sexuais fora da esfera jurídica. O importante, nesses casos, é que todos os envolvidos estejam cientes, confortáveis e em constante diálogo.
A prática pode não somente coexistir com a instituição do casamento, como também revitalizá-la, trazendo novas dinâmicas e ressignificando compromissos. Para isso, a base deve ser ética relacional, comunicação aberta, respeito e consentimento.Relacionamentos hinge, não são para todos, mas podem ser uma alternativa legítima para quem busca viver múltiplos afetos de maneira consciente e respeitosa. Eles exigem escuta, maturidade e disposição para quebrar padrões. À medida que avançamos para um mundo com menos amarras morais e mais liberdade para amar de formas diversas, é possível que vejamos, inclusive, casamentos baseados nesse modelo ganhando espaço e reconhecimento, não como uma moda, mas como mais uma possibilidade legítima de amar.