
Num mundo que historicamente ensinou as mulheres a “serem desejadas”, mas não a desejarem, qualquer movimento de autonomia sexual feminina ainda causa espanto. Quando uma mulher assume seus fetiches, suas fantasias, seu próprio prazer sobretudo aqueles que não seguem o roteiro tradicional do sexo “romântico e passivo” ela é, quase sempre, julgada, mal compreendida ou silenciada.
Esse incômodo coletivo tem raízes profundas. Durante séculos, o desejo feminino foi apagado, reprimido ou patologizado. No século XIX, mulheres que apresentavam desejos sexuais intensos ou comportamentos fora do esperado eram diagnosticadas com “histeria” uma condição fictícia criada para justificar tudo o que o patriarcado não conseguia compreender ou controlar. E a “cura” passava por tratamentos absurdos, como massagens pélvicas feitas por médicos ou até internações em manicômios.
Freud, apesar de ser um dos pais da psicanálise, também contribuiu para essa narrativa enviesada. Em seus estudos, sugeriu que a mulher só atingia “o prazer pleno” ao renunciar ao clitóris em favor do pênis, ou seja, transferindo o centro do prazer para o que fosse conveniente ao modelo masculino. Para Freud, a mulher que não gozava “adequadamente” sofria de imaturidade psíquica, ignorando a complexidade e variedade das experiências de prazer femininas. Na prática, mulheres que não sentiam prazer com penetração eram vistas como “defeituosas”, em vez de simplesmente serem diferentes.
O tempo passou, mas a estrutura de pensamento ainda está presente. Mulheres seguem sendo ensinadas a “gostar menos”, “controlar o impulso”, “serem misteriosas” e, se possível, colocarem o prazer do parceiro em primeiro lugar. Quando uma mulher ousa dizer que tem fetiches, que sente tesão em observar, dominar, provocar ou participar de dinâmicas fora do script como o cuckolding, o voyeurismo ou até mesmo inversões de papéis de poder ela é vista com desconfiança. Se ela sente prazer ao ver o parceiro com outra, então, o choque é imediato.
A sociedade se pergunta: “Mas ela não está sendo submissa?”
A resposta é: nem sempre. E quase nunca da forma que se imagina.
Há, sim, situações em que mulheres se submetem a dinâmicas que não desejam, por medo de perder o parceiro ou por insegurança. Mas também há muitas, cada vez mais que escolhem estar ali, de forma consciente, madura e autêntica. Mulheres que assumem o comando da própria fantasia, mesmo que ela pareça contraditória ou transgressora para quem ainda enxerga o sexo como uma linha reta, previsível e limitada.
O problema está no fato de que a liberdade sexual feminina ainda é medida com régua masculina. Se o homem gosta de algo “ousado”, ele é viril. Se a mulher gosta da mesma coisa, ela é promíscua, doente, submissa ou emocionalmente perdida. O que falta é aceitar que prazer também é sobre poder e que o poder feminino pode se expressar de formas múltiplas, nem sempre óbvias.
É preciso entender que nem tudo que parece submissão é ausência de autonomia. Muitas vezes, a mulher que “deixa” o parceiro viver algo com outra está, na verdade, orquestrando toda a experiência com desejo e controle emocional. Ela não é figurante. Ela é autora. Ela sente tesão em ceder porque o gesto de ceder também pode ser escolha, e portanto, poder.
Por outro lado, nem tudo que parece liberdade também é. Há dinâmicas impostas, disfarçadas de modernidade, que escondem dependência emocional, desigualdade ou pressão. E é por isso que o empoderamento sexual não é sobre parecer livre, mas sobre saber por que se está fazendo o que se faz e com quem.
O empoderamento dos fetiches femininos passa por permitir que as mulheres desejem, explorem, falem e também errem sem serem rotuladas. Passa por aceitar que há mulheres que gostam de assistir, de provocar, de fantasiar e que o prazer não é menos legítimo por não seguir a lógica da monogamia romântica ou do sexo “fofinho”.
A pergunta que fica é: estamos prontos para uma sexualidade em que as mulheres também lideram o desejo?
Porque elas já estão fazendo isso mesmo quando fingem que não. E merecem ser respeitadas por isso.
E você, mulher, como tem explorado sua sexualidade? Conta pra gente nos comentários!
Na Revolution, o seu prazer é livre, consciente e respeitado. Aqui, todas as formas de querer são bem-vindas sem julgamentos, só conexão. Vem viver o seu desejo com liberdade.