
Psicanalista e pesquisadora da sexualidade defende que relações fora do casamento ou do namoro não sejam automaticamente associadas à ideia de traição e afirma que os acordos estabelecidos entre o casal devem ser considerados
A discussão sobre monogamia, fidelidade e liberdade sexual voltou a ganhar espaço a partir de uma declaração da psicanalista e pesquisadora da sexualidade Regina Navarro Lins, autora de A Cama na Varanda. Em entrevista ao podcast Conexões, Regina questionou o uso da palavra “traição” para definir relações sexuais ou afetivas que acontecem fora do casamento ou do namoro.
Durante a conversa, a psicanalista foi direta: “Variar é bom, gente. Quem não sabe que variar é bom?” A declaração aconteceu durante uma discussão sobre relações extraconjugais e os limites estabelecidos dentro de relacionamentos. Para Regina, o termo “traição” carrega um peso que pode dificultar o debate sobre diferentes formas de viver a sexualidade. “A palavra ‘traição’ tem que ser banida”, afirma Regina
Na entrevista, Regina Navarro Lins faz uma distinção entre trair alguém e estabelecer relações fora de um relacionamento tradicionalmente monogâmico. Segundo ela, a palavra traição deveria ser reservada para situações que envolvem uma quebra de confiança mais ampla. “Trair é uma coisa muito séria. Trair um amigo, trair um sócio, trair um irmão.”
Questionada sobre qual expressão deveria ser utilizada no lugar de “traição”, a psicanalista sugere termos mais descritivos, como “relação fora do casamento”, “relação fora do namoro” ou até mesmo “poliamor”, dependendo da configuração daquela relação. A ideia central apresentada por Regina é que a palavra utilizada para definir uma experiência também pode influenciar a maneira como ela é percebida socialmente.
Para Regina, o que vale é o acordo estabelecido pelo casal
Um dos pontos mais relevantes da entrevista aparece quando a discussão chega à ideia de quebra de confiança. Se um casal estabelece explicitamente um acordo de exclusividade e uma das pessoas mantém relações com terceiros escondendo isso do parceiro, existe uma quebra daquele combinado. Mas Regina questiona justamente a ideia de que a monogamia seja necessariamente um contrato implícito e universal para todos os relacionamentos.
Na entrevista, ela afirma: “Vale o que está combinado.”
A declaração abre espaço para uma discussão importante: fidelidade precisa necessariamente significar exclusividade sexual? Para algumas pessoas, sim. Para outras, não.
Existem relacionamentos monogâmicos, relações abertas, acordos de não exclusividade, poliamor e diferentes formatos de relacionamento. O ponto central, nessa perspectiva, não seria simplesmente quantas pessoas participam da relação, mas quais são os acordos estabelecidos e se eles são respeitados.
Relação aberta não é sinônimo de traição
É importante fazer uma distinção. Uma relação aberta pressupõe, em sua definição mais básica, que exista algum nível de consentimento e acordo entre as pessoas envolvidas para que relações com terceiros possam acontecer.
Isso é diferente de esconder deliberadamente uma relação de alguém que acredita estar vivendo uma relação exclusivamente monogâmica. Por isso, o debate proposto por Regina não precisa ser entendido como uma defesa da infidelidade. É, antes, um questionamento sobre como construímos socialmente os conceitos de fidelidade, exclusividade e liberdade sexual.
O que essa discussão revela sobre as mulheres? É aqui que, como jornalista e também como uma mulher que já viveu relacionamentos, considero que a discussão ganha outra camada. Na minha percepção, existe um componente histórico e cultural que não pode ser ignorado: a sexualidade feminina sempre foi muito mais controlada socialmente do que a masculina.
Durante muito tempo, homens que mantinham relações com várias mulheres foram associados à ideia de virilidade, enquanto mulheres que demonstravam desejo sexual, buscavam novas experiências ou assumiam uma sexualidade mais livre eram frequentemente submetidas ao julgamento moral.
E talvez seja justamente por isso que a discussão sobre “variar” provoque tanto desconforto. Quando um homem afirma que gosta de experimentar sexualmente, muitas vezes isso é interpretado como parte da masculinidade.
Quando uma mulher afirma a mesma coisa, ainda pode ser julgada como promíscua, irresponsável ou incapaz de manter um relacionamento. Por que a liberdade sexual deveria ser um privilégio masculino?
O problema não deveria ser a liberdade, mas a falta de acordo
Concordo com Regina quando ela questiona o uso automático da palavra “traição”. Mas acrescentaria uma ressalva: o problema não está necessariamente na monogamia ou na não monogamia. Está na falta de transparência. Se duas pessoas desejam uma relação exclusivamente monogâmica e fazem esse acordo, esse limite merece ser respeitado.
Se duas pessoas desejam uma relação aberta e estabelecem regras para isso, esses acordos também precisam ser respeitados. Se um casal decide experimentar juntos, a escolha pertence aos dois. O que muda é a configuração da relação. O que não deveria mudar é o princípio básico do consentimento. “Variar é bom” — mas para quem? Talvez essa seja a pergunta que precisa acompanhar a provocação feita por Regina Navarro Lins. Variar pode ser bom para algumas pessoas. Para outras, a exclusividade é justamente aquilo que faz sentido e proporciona segurança emocional. Não existe uma única maneira de viver relacionamentos.
O que existe é a necessidade de que as pessoas tenham liberdade para construir seus próprios acordos sem que sejam obrigadas a seguir um modelo apenas porque ele foi historicamente apresentado como o único possível. E, principalmente, que ninguém seja colocado em uma relação aberta sem ter consentido com ela.
O debate sobre sexualidade feminina ainda incomoda
A fala de Regina também nos coloca diante de uma questão maior: por que ainda é tão difícil aceitar uma mulher que assume o próprio desejo? Talvez porque a autonomia sexual feminina ainda confronte estruturas muito antigas. Uma mulher que reconhece seus desejos, estabelece limites e decide o que quer viver sexualmente não necessariamente está desrespeitando ninguém. Ela pode simplesmente estar exercendo autonomia sobre o próprio corpo e sobre a própria vida. E isso não significa que todas as mulheres precisem querer relações abertas, múltiplos parceiros ou qualquer outra configuração.
Empoderamento sexual não é fazer aquilo que esperam de nós. É ter liberdade para decidir o que queremos — inclusive escolher a monogamia.
No fim, talvez a pergunta seja outra
A discussão levantada por Regina Navarro Lins vai muito além da palavra “traição”. Ela coloca em debate quem define as regras dos relacionamentos, de onde vêm essas regras e até que ponto elas fazem sentido para as pessoas que estão, de fato, vivendo aquela relação. Talvez não seja necessário convencer todo mundo de que “variar é bom”. Talvez o mais importante seja permitir que cada pessoa descubra o que é bom para ela e para o relacionamento que escolheu construir. Desde que exista consentimento. Desde que exista diálogo. Desde que exista respeito.
Porque, no fim, uma relação não deveria ser definida apenas pelo número de pessoas envolvidas, mas pela qualidade dos acordos que essas pessoas conseguem construir entre si.
E talvez seja justamente aí que a discussão sobre fidelidade precise começar.