
A sexualidade humana é marcada por uma enorme diversidade de desejos, fantasias e formas de sentir prazer. Algumas práticas são bastante conhecidas, enquanto outras despertam curiosidade e até preconceito. Entre elas está o fetiche por cheirar calcinha usada, uma preferência sexual que, embora pouco discutida abertamente, possui explicações na psicologia, na neurociência e na sexologia.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, esse comportamento não é considerado automaticamente um transtorno mental. Especialistas explicam que, na maioria dos casos, trata-se apenas de uma variação da sexualidade humana, desde que ocorra entre adultos, de forma consensual e sem causar sofrimento ou prejuízo.
Mas afinal, por que algumas pessoas sentem excitação ao cheirar uma peça íntima usada?
Como esse fetiche é conhecido pela ciência?
Não existe um termo oficial que defina exclusivamente o fetiche por cheirar uma calcinha usada. Na literatura científica, ele costuma ser entendido como a combinação de dois interesses sexuais.
O primeiro é o fetichismo por roupas íntimas (underwear fetish), caracterizado pela excitação relacionada a peças como calcinhas, cuecas, meias ou lingeries. O segundo é a olfatofilia, também chamada de osmolagnia, um tipo de fetiche em que a excitação sexual é desencadeada por odores específicos, especialmente os cheiros naturais do corpo humano.
Quando essas duas características se unem, o estímulo sexual está relacionado tanto à roupa íntima quanto ao odor deixado por quem a utilizou.
Por que o cheiro pode despertar desejo?
O olfato é considerado um dos sentidos mais ligados às emoções e à memória. Diferentemente da visão ou da audição, os estímulos olfativos chegam rapidamente ao sistema límbico, região cerebral responsável por processar emoções, lembranças e comportamentos relacionados ao prazer.
Essa relação foi demonstrada pela psicóloga Rachel S. Herz no estudo “Influences of Odors on Mood and Affective Cognition” (2002). A pesquisa mostra que os odores possuem grande capacidade de despertar memórias afetivas e alterar estados emocionais, ajudando a explicar por que determinados cheiros podem adquirir significado sexual para algumas pessoas.
Em outras palavras, o cérebro pode associar um cheiro específico a uma experiência prazerosa, fazendo com que esse odor passe a provocar excitação no futuro.
O que dizem os estudos científicos?
Embora existam poucos estudos voltados exclusivamente para o fetiche por roupas íntimas usadas, diversas pesquisas mostram que o olfato exerce um papel importante na atração sexual.
O cheiro influencia a escolha dosparceiros.s
Uma revisão científica publicada por Jan Havlíček e S. Craig Roberts, intitulada “MHC-correlated Mate Choice in Humans” (2009), na revista Psychoneuroendocrinology, concluiu que os odores corporais influenciam a percepção de atração e compatibilidade entre parceiros.
Os pesquisadores sugerem que o cheiro corporal pode transmitir informações biológicas que, de forma inconsciente, participam da escolha de um parceiro sexual.
O olfato influencia emoções e comportamentosexual.l
Outra referência importante é o livro “Handbook of Olfaction and Gustation” (2015), organizado pelo pesquisador Richard L. Doty, considerado uma das maiores autoridades mundiais em olfato humano.
A obra reúne evidências de que os odores corporais influenciam a comunicação entre pessoas, os vínculos afetivos e diversas respostas relacionadas ao comportamento sexual.
Como esse fetiche pode surgir?
Até hoje, a ciência não encontrou uma única explicação para o desenvolvimento dos fetiches.
Entre as hipóteses mais aceitas estão:
* associação entre determinado cheiro e experiências sexuais positivas;
* aprendizado durante a adolescência ou início da vida sexual;
* atração pelos odores naturais do corpo;
* simbolismo da roupa íntima como objeto de intimidade e desejo;
* fortalecimento dessas associações ao longo do tempo.
Isso significa que, para algumas pessoas, o cérebro passa a relacionar aquele cheiro específico ao prazer sexual.
Esse fetiche é considerado uma doença?
A resposta é não. Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Associação Americana de Psiquiatria, 2022), possuir um fetiche não significa ter um transtorno psicológico.
O diagnóstico de Transtorno Fetichista somente é realizado quando:
* provoca sofrimento intenso à própria pessoa;
* interfere na vida afetiva, social ou profissional;
* envolve práticas sem consentimento ou que violem os direitos de terceiros.
Ou seja, uma preferência sexual consensual, entre adultos e que não cause prejuízos, não é considerada doença.
Esse tipo de fetiche é comum?
É praticamente impossível responder com precisão.
Muitas pessoas não revelam suas fantasias sexuais por medo de julgamento, o que dificulta pesquisas populacionais.
Ainda assim, os especialistas afirmam que tanto o fetichismo por roupas íntimas quanto a olfatofilia aparecem regularmente em estudos sobre fantasias e comportamento sexual, sendo considerados interesses relativamente conhecidos dentro da sexologia.
Existe algum risco?
Do ponto de vista psicológico, não há problema em possuir esse tipo de fetiche quando ele faz parte de uma vida sexual saudável e consensual.
Já do ponto de vista da saúde, especialistas lembram que roupas íntimas usadas podem conter fungos, bactérias e outros microrganismos. Por isso, qualquer prática envolvendo esse tipo de objeto deve respeitar cuidados básicos de higiene e ocorrer sempre entre pessoas que concordem livremente com a experiência.
O consentimento continua sendo o elemento mais importante em qualquer prática sexual.
O preconceito ainda é maior do que a informação.
Fetiches costumam ser cercados por mitos, vergonha e desinformação. No entanto, pesquisadores da sexualidade defendem que compreender essas preferências sob uma perspectiva científica ajuda a reduzir preconceitos e favorece uma educação sexual mais responsável.
A sexualidade humana é extremamente diversa. Ter um fetiche incomum não significa que exista um problema psicológico. O que realmente diferencia uma expressão saudável da sexualidade de um transtorno é o impacto que ela causa na vida da pessoa e o respeito aos limites e ao consentimento de todos os envolvidos.
O que é olfatofilia?
É um tipo de fetiche em que a excitação sexual ocorre por meio de odores específicos, especialmente cheiros naturais do corpo humano.
Cheirar calcinha usada é considerado um transtorno?
Não. Apenas se esse interesse causar sofrimento significativo, prejuízos à vida da pessoa ou envolver práticas sem consentimento, conforme os critérios do DSM-5-TR.
Por que algumas pessoas sentem prazer com cheiros corporais?
Porque o olfato está diretamente conectado às áreas do cérebro responsáveis pelas emoções, memória e recompensa, podendo criar associações entre determinados odores e experiências prazerosas.
Esse fetiche é raro?
Não existem dados precisos sobre sua frequência, mas tanto o fetichismo por roupas íntimas quanto a olfatofilia são descritos com relativa frequência na literatura científica sobre comportamento sexual.