Após relato ao Metrópoles, grupo que vive junto no interior de São Paulo descreve a relação como “desconstrução e reconstrução” e evidencia um ponto central: não é o formato que define a qualidade do vínculo, mas a forma como ele é vivido, com consentimento, cuidado e limites claros.

Grávida do primeiro filho, a empresária Laís Rocha, 27, contou ao Metrópoles que divide a vida com o marido, o motoboy Ivan Rocha, 36, e outras cinco mulheres em uma casa em Atibaia (SP). O grupo afirma que a gestação foi planejada e que a responsabilidade com o bebê será compartilhada, enquanto prepara uma cerimônia simbólica para novembro, já que, no papel, Ivan é casado apenas com Laís.
A história ganhou tração por romper com o roteiro que a sociedade costuma oferecer como “manual” de afetos: uma pessoa, um par, um caminho único. No relato ao Metrópoles, Laís nomeia o que muita gente sente, mesmo em relações tradicionais: ninguém recebe um treinamento real para lidar com ciúme, negociação, frustrações e expectativas. “Ninguém está pronto”, ela diz, ao descrever o poliafeto como um processo de reconstrução.
O que esse tipo de narrativa coloca em evidência não é só a não monogamia, mas a dimensão prática do amor. Na casa, a rotina precisa ser combinada: convivência, tarefas, finanças, prioridades, tempos individuais e coletivos. Numa relação com mais pessoas, a “logística” deixa de ser bastidor e vira parte do pacto. E é justamente aí que aparece a linha que separa amor de desgaste: quando o acordo é claro, revisável e respeitado por todos, a relação tende a produzir segurança; quando um lado define regras, desejos e limites sozinho, o formato vira só cenário para controle.
No Brasil, a legislação não prevê casamento civil com mais de uma pessoa. E a bigamia (contrair novo casamento sendo casado) é tipificada no Código Penal. Por isso, o próprio texto do Metrópoles destaca que o casamento formal é apenas entre Laís e Ivan, enquanto a cerimônia anunciada tem caráter simbólico. Também há um histórico de disputa jurídica sobre escrituras públicas envolvendo uniões poliafetivas, com decisão do CNJ proibindo cartórios de lavrarem esse tipo de escritura como “união estável” em âmbito nacional.
Ainda assim, a discussão mais relevante que a reportagem suscita vai além do cartório: todas as formas de amar podem ser positivas quando não há desrespeito. Isso significa, na prática: consentimento contínuo (não só no início), autonomia preservada (ninguém “vira peça” do relacionamento), transparência sobre expectativas e um mecanismo real de reparo quando algo machuca. Se em qualquer arranjo, monogâmico, aberto, poliafetivo, alguém sente que precisa engolir incômodos para “não perder” o outro, o problema não é o modelo: é a falta de reciprocidade.
A própria gravidez, tratada como planejada e acompanhada por todas, funciona como um teste concreto de maturidade afetiva: quem decide? Quem assume cuidado? Como se dividem responsabilidades? Como se garantem limites? É nesse tipo de resposta cotidiana, mais do que em discursos, que um relacionamento mostra se está baseado em respeito ou em assimetria.

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