
Os dados mais recentes do IBGE mostram que o tempo médio entre a data do casamento e o divórcio caiu de 17,1 anos (2004) para 14,7 (2014) e chegou a 13,8 anos (2024).
Os números ajudam a nomear uma sensação coletiva: há menos disposição para ceder, para escutar e para atravessar o desconforto que todo convívio traz. Na prática, o “contrato” do dia a dia parece ter ficado mais curto do que o contrato assinado no cartório e o casamento, que exige negociação constante, sofre quando a vida a dois vira um campo onde ninguém quer abrir mão de nada.
Existe um ponto cego que muita gente só enxerga depois: casar não é somar rotinas; é administrar diferenças. Só que, em tempos de “autonomia acima de tudo”, abrir mão virou sinônimo de perder. E aí, em vez de concessões inteligentes (aquelas que protegem o vínculo), entram as defesas rígidas: “do meu jeito”, “do meu tempo”, “da minha verdade”. O resultado costuma ser um relacionamento com baixa tolerância a fricção: qualquer divergência vira ameaça, qualquer pedido vira cobrança, qualquer ajuste vira negociação de poder.
O segundo desgaste é a impaciência com a opinião do outro. Não por falta de amor, necessariamente, mas por falta de escuta. Quando a conversa vira disputa, o casal deixa de ser time e passa a ser tribunal. E tribunal não resolve rotina, não educa filhos (quando existem), não paga boleto, não atravessa luto, não sustenta projeto comum. Relacionamento precisa de algo menos vistoso e mais raro: a habilidade de discordar sem desqualificar.
Aí entra um terceiro ponto: maturidade quase nunca é “verificada” antes de casar. Planeja-se a festa, escolhe-se a foto, fecha-se o buffet, mas pouco se treina o essencial: como esse casal repara um conflito? Como pede desculpa? Como negocia expectativas? Como lida com dinheiro, família, limites, frustrações, silêncio e cansaço? A cerimônia costuma avaliar compatibilidades externas; a vida a dois cobra competências internas.
Freud tem uma frase que ajuda a colocar o tema em perspectiva: “nunca estamos tão indefesos contra o sofrimento quanto quando amamos”. O amor exige vulnerabilidade; o problema é querer os benefícios do vínculo sem pagar o “custo” da vulnerabilidade: ouvir o que não agrada, revisar certezas, ajustar rotas, perder pequenas batalhas para ganhar convivência.
No fim, talvez a pergunta seja menos “por que os casamentos duram menos?” e mais “quanto da vida a dois a gente está disposto a aprender?”. Porque amar, na prática, não é encontrar alguém que concorde com tudo, é construir um jeito de continuar junto mesmo quando o mundo interno de cada um insiste em gritar “primeiro eu”.