Longe de qualquer ideal romântico obrigatório, mulheres e homens hoje negociam relações monogâmicas, poliamorosas, liberais ou a opção de simplesmente ficar sozinhos. Em paralelo, os dados sobre feminicídio seguem alarmantes e ajudam a entender por que tantas mulheres colocam sua segurança e autonomia acima da pressão social para “ter alguém”.
Com isso em mente, é fundamental afirmar: o problema não é o formato do relacionamento, e sim qualquer dinâmica que desrespeite consentimento, limites e dignidade.
Segundo a pesquisa do UN Women, em 2024, cerca de 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares no mundo, em média, 137 por dia outros dados evidenciam em reportagem da CNN só no Brasil, foram 1.459 vítimas de feminicídio, o equivalente a quatro mulheres mortas diariamente, quase todas assassinadas por homens. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que 72% das mulheres solteiras no país dizem estar mais felizes fora de um relacionamento.
Entre medo, cansaço e desejo de autonomia, a escolha de como ou se se relacionar virou um ato político.
O cansaço de ser “a adulta da relação”
A popularização de conteúdos nas redes, que dizem que “mulheres que odeiam homens, mas têm ótimos maridos”, revela um sentimento que vai muito além de uma frase de impacto: é o esgotamento de mulheres que carregam sozinhas a responsabilidade emocional, financeira e prática dos relacionamentos.
Não se trata de “ódio aos homens” em bloco, mas de rejeição a relações nas quais elas são sempre as adultas, as que organizam, cobram, perdoam, consertam e sustentam o vínculo enquanto muitos parceiros se comportam como convidados da própria vida. Esse “ódio” é, muitas vezes, outro nome para frustração acumulada, para o incômodo de aceitar migalhas de afeto em troca de uma companhia que custa caro para a autoestima.
Quando olhamos os números da violência, esse cansaço ganha contornos ainda mais graves. Além dos feminicídios consumados, o Brasil bateu recorde recente de tentativas de feminicídio e de outros crimes contra mulheres, como perseguição e violência psicológica.
A mensagem é clara: não é exagero quando mulheres dizem que preferem viver sozinhas do que em uma relação que ameaça sua integridade física e emocional.
Mais mulheres felizes solteiras e isso não é uma ameaça
O mesmo país que naturaliza piadas com “encalhadas” convive com um dado incômodo para o imaginário machista: segundo a pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, 72% das mulheres solteiras afirmam estar mais felizes sem um relacionamento amoroso, contra 67% dos homens.
Em outras palavras, a solteirice feminina, hoje, está muito mais ligada à escolha do que à falta de opção. Ao conquistar renda própria, estudar mais e construir redes de apoio entre amigas, colegas e comunidades, as mulheres passam a ter algo que durante muito tempo lhes foi negado: a possibilidade concreta de dizer “não”.
Esse “não” vale para relações monogâmicas tradicionais que não as respeitam, mas também para qualquer outra configuração em que não haja reciprocidade, honestidade e segurança. A tendência de mulheres preferirem ficar sem parceiros, em muitos casos, é uma reação direta a uma cultura que ainda oferece, com frequência, relações medíocres, violentas ou emocionalmente exaustivas.
Formato não é desculpa: monogamia, poliamor e relações liberais sob o mesmo princípio
Quando se discute relacionamentos abertos, poliamor ou ambientes liberais, como casas de swing, é comum que surjam associações morais negativas, muitas vezes, mais rápidas em condenar o formato do que em questionar a qualidade das relações que acontecem dentro da estrutura tradicional do casamento.
Mas os dados esclarecidos na pesquisa UN Women, de feminicídio revelam uma realidade desconfortável: a maioria das mulheres mortas o foi justamente por parceiros íntimos ou familiares, dentro de relacionamentos considerados “normais” pela sociedade.
Isso desmonta a ideia de que a monogamia, por si só, é garantia de cuidado e respeito.
O que diferencia uma relação saudável de uma relação abusiva não é o modelo, monogâmico, poliamoroso ou liberal, e sim a presença de três pilares básicos:
Consentimento claro e contínuo.
– Comunicação honesta sobre desejos, limites e combinados.
– Responsabilidade afetiva e respeito irrestrito à integridade física e emocional de todas as pessoas envolvidas.
Em qualquer arranjo, quando alguém é pressionado, manipulado, humilhado, ameaçado ou agredido, não estamos diante de um “estilo de vida”, mas de violência. E violência não é opinião, é crime.
Revolution Swing Club: liberdade com responsabilidade
Dentro desse cenário, espaços voltados ao público liberal também são desafiados a se posicionar. Não basta defender liberdade sexual ou afetiva se não houver compromisso explícito com a segurança, especialmente das mulheres, que seguem sendo as principais vítimas de agressões, abusos e feminicídios no Brasil e no mundo.
É preciso reforçar algumas premissas:
– Nenhuma fantasia, desejo ou curiosidade justifica desrespeitar um “não”.
– Nenhum acordo de casal autoriza que alguém ultrapasse limites físicos ou emocionais.
– Nenhum ambiente de entretenimento adulto pode tolerar comportamentos abusivos sob a desculpa de que “todo mundo sabe onde está entrando”
Relacionamentos, sejam monogâmicos, poliamorosos, abertos ou liberais, só merecem esse nome quando são construídos sobre respeito, autonomia e consentimento. Em uma sociedade que ainda mata quatro mulheres por dia apenas por serem mulheres, normalizar qualquer indício de violência, controle ou desqualificação é ser cúmplice de um problema estrutural.
A Revolution Swing Club entende que liberdade afetiva e sexual não combina com violência. Por isso, a casa não apoia, não incentiva e não compactua com nenhum tipo de agressão física, psicológica, sexual ou moral contra mulheres. O clube se solidariza com todas as vítimas de violência e feminicídio, reforça seu compromisso com ambientes seguros e responsáveis e defende que o único relacionamento aceitável, em qualquer formato, é aquele em que todas as pessoas envolvidas são tratadas com dignidade.

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