
Em entrevista à BBC News Brasil, sexóloga Ilana Eleá detalha as fases e medos comuns da transição para uma relação não monogâmica e destaca a comunicação radical como base.
“O que você acha da gente abrir o nosso casamento?” Foi com essa proposta, dada de presente no aniversário de 10 anos de união, que a escritora e sexóloga Ilana Eleá iniciou com o marido uma jornada que ela define como “relacionamento misto”. Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, a doutora em Educação, que vive na Suécia, explica que a mudança só foi possível após um profundo “inventário emocional”, um processo de autoconhecimento e diálogo que ela considera fundamental para qualquer casal que considere sair da monogamia. “Você bota luz nos medos e fala: e agora? Vamos falar sobre isso?”, diz.
Na data que marcava uma década de casados, a escritora, doutora em Educação e sexóloga Ilana Eleá apresentou ao marido um presente incomum: a proposta de sair da monogamia e abrir a relação. Ela, que já estudava o tema e começava a escrever sua trilogia erótica — com os livros Emma e o Sexo e Emma e o Poliamor —, usou “a cartada da Emma” para colocar em prática sua pesquisa. O marido aceitou, e a celebração foi com champanhe.
Cinco anos depois, Ilana afirma que sua vida conjugal está “muito melhor”. Mas faz um alerta, em conversa com a BBC News Brasil: não se trata de romantizar. “Um terço dos relacionamentos que abrem depois terminam. Por outro lado, essa também é a média de relacionamentos monogâmicos que terminam. Ou seja, no fundo, dá no mesmo. Então é melhor você escolher qual o formato com que você se identifica mais”, pondera.
A especialista, formada como terapeuta sexual pelo Contemporary Institute of Clinical Sexology (CICS), enfatiza que a transição só foi viável porque ela mesma mudou. “Eu tinha ciúme no meu relacionamento anterior, inclusive de fantasia”, confessa. O caminho, segundo ela, exige um cuidadoso inventário emocional.
Os medos sob a luz
Ilana explica que, enquanto na monogamia os medos — da traição, do fim, do abandono — muitas vezes ficam nas sombras, a abertura consensual do relacionamento joga um holofote sobre eles. “É como se jogassem uma luz dentro. Então, se eu estou com medo de ser traída, bota luz nisso e fala ‘agora você vai ver'”, compara.
Ela conta que, na primeira vez que foram a um clube de swing, seu temor era: “Gente, eu vou conseguir ver o meu marido amado?”. A experiência, que ela achou que não suportaria, tornou-se um marco. “Eu achava que ia morrer, mas não morri. Conversar sobre isso e não ficar só no travesseiro, chorando com medo, é importante”, relata.
A sexóloga destaca que os medos costumam ser diferentes conforme o gênero da socialização: para homens, muitas vezes há uma comparação com a virilidade (“Como a minha mulher vai estar com outro homem?”); para mulheres, prevalece o medo de serem abandonadas, trocadas ou deixadas de lado. Ambos temem o julgamento social, mas para as mulheres o peso costuma ser maior.
Comunicação “até a morte”
O pilar central para navegar por esses medos e construir uma nova dinâmica, segundo Ilana, é a comunicação radical. “Quinhentos mil por cento mais [conversam do que em relacionamentos monogâmicos]. É dito que a comunicação é um ponto radical. Tem que comunicar até a morte. É uma comunicação contínua”, afirma, citando o livro A World Beyond Monogamy, de Jonathan Kent.
Esse diálogo constante é o que permite ajustar os combinados, expressar inseguranças e celebrar descobertas. “É uma contínua comunicação: ‘Olha, como é que eu me senti. Me senti mal. Acho que vamos dar um passinho para trás. Ou vamos dar um passinho para frente… Isso eu gostei, isso não gostei, preciso de mais atenção aqui'”, exemplifica.
As fases do processo
Para quem deseja iniciar essa mudança, Ilana descreve fases comuns pelas quais os casais passam. Tudo começa com um inventário emocional individual e a dois, que envolve identificar medos, desejos e expectativas. Em seguida, vem a fase da negociação explícita de regras e limites, que devem ser revisitadas constantemente.
A primeira experiência prática, como a ida a um clube ou um primeiro encontro individual, é outro marco, seguido de um “debriefing” emocional — um momento para processar juntos os sentimentos que surgiram. Por fim, estabelece-se um ciclo contínuo de reavaliação, onde a comunicação aberta mantém a relação viva e ajustada às necessidades de ambos.
Ilana Eleá conclui com um conselho: o formato da relação deve ser uma escolha consciente, e não uma imposição social. O sucesso, seja na monogamia ou fora dela, depende menos da estrutura em si e mais da qualidade do vínculo, do autoconhecimento e, sobretudo, da coragem de colocar os sentimentos na mesa e falar sobre eles — repetidas vezes.
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