Nos últimos anos, o debate sobre relacionamentos não convencionais deixou de ser tema de nicho e ganhou espaço nas conversas públicas. A atriz Fernanda Nobre, por exemplo, abriu o verbo em entrevista para o site Terra, relatou que decidiu adotar um relacionamento aberto com o diretor José Roberto Jardim, depois de estudar feminismo e perceber que “a monogamia é mais uma forma de controle para as mulheres”. Essa decisão, para ela, teve um forte componente político: dizer “não” ao modelo único de amar e “sim” à liberdade de escolha.
Por que é político?
Quando o sistema cultural nos ensina que o amor verdadeiro só existe em casal exclusivo, heteronormativo e vitalício, resistir a essa narrativa é resistência. As filósofas feministas como Simone de Beauvoir já alertavam que amar não deve significar aprisionar e que buscar liberdade não é traição. Nesse sentido, abrir o relacionamento (ou escolher outro modelo) pode se tornar uma afirmação de autonomia.
Para Beauvoir, a mulher histórica não deve levar sua liberdade para o altar; ela deve conservar sua liberdade no amor. O ato de escolher formas diferentes de amar, portanto, carrega um forte traço político de libertação.
Escolher ou não monogamia: a nova questão
A sociedade ainda trata a monogamia como norma. Qualquer alternativa é vista como risco, promiscuidade ou falha moral. Mas o que a atriz evidencia e o movimento das relações plurais confirma é que a monogamia não cabe para todos. Não se trata de “menos amor”, mas de outro tipo de amor: mais negociado, mais consciente, mais plural. E isso exige diálogo, respeito, limites claros e autoconhecimento. A diferença entre simplesmente viver “abre para depois terminar” e viver um relacionamento aberto como escolha está justamente nessa consciência.
Ao escolher um não-modelo imposto, o casal não está abrindo apenas o corpo, está abrindo possibilidades para que cada um permaneça individua­lmente inteiro.
Comunicação não violenta e escolhas conscientes
Se amar é também uma arte ética, então a forma como falamos sobre ele importa. A técnica da Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolver empatia, expressar sentimentos e escutar necessidades, emerge como ferramenta central para que acordos de relacionamento aberto não se transformem em fontes de sofrimento. Em vez de mentiras, traições e culpa, o que se propõe é: “conversar, negociar, redefinir”. Esse exercício diário torna a escolha política verdadeira, não apenas simbólica.
Priorize-se
No fim das contas, a pergunta que fica não é “monogâmico ou poliamoroso?”, mas “como eu quero amar?”. A verdadeira revolução está em eleger a sua prioridade: você. No ato de decidir com quem, como, quando e quantos corpos e afetos você compartilha, você está exercendo sua liberdade. Se, como Fernanda Nobre afirmou, abandonar o padrão da monogamia foi também para ela um gesto político, de honestidade e empoderamento, então talvez o ato de definir seu próprio caminho afetivo seja igualmente político. Escolha-se. Ame-se. E, se decidir amar de forma plural, que seja por convicção e não por pressão.

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