Por que mulheres libertas são mais julgadas e homens parecem ganhar bônus por “dividir”

Enquanto hoje se discute mais abertamente o pluralismo afetivo e a não-monogamia consensual (NM), ainda observamos uma forte assimetria de tratamento social: mulheres que vivem ou desejam relacionamentos abertos ou bissexuais são mais frequentemente estigmatizadas, enquanto os homens ficam “na galeria dos conquistadores”, muitas vezes admirados ou no mínimo tolerados.
Simone de Beauvoir e o aspecto político do amor.
Ela afirmou: “Em si mesma, a homossexualidade é tão limitante quanto a heterossexualidade: o ideal deveria ser ser capaz de amar uma mulher ou um homem; ou um ser humano, sem sentir medo, restrição ou obrigação.”
Essa fala nos ajuda a entender que os papéis tradicionais de gênero, em que a mulher é submetida, moralizada e limitada, foram historicamente construídos para controlar a sua liberdade, inclusive afetiva e sexual. Quando uma mulher decide optar pela não monogamia, bissexualidade ou abertura no relacionamento, ela está simbólica e praticamente questionando essa estrutura.
O duplo padrão perverso
Para o homem, ter mais de uma parceira, explorar abertamente desejo, é visto muitas vezes como virilidade ou até status social. Para a mulher, a mesma atitude pode ser rotulada como promiscuidade, instabilidade ou fraqueza moral. Bissexualidade feminina em particular vive um paradoxo: estudos evidenciam que mulheres bissexuais podem ser vistas como “experimentais” ou objetificadas, enquanto seus desejos reais são ignorados.
Por que o julgamento se transforma em barreira
A monogamia foi construída como norma cultural, quase como “dever moral”, especialmente para mulheres. Quando uma mulher abre mão da exclusividade, ela quebra o consenso social e isso gera desconforto coletivo. A objetificação e sexualização da mulher ainda imperam: se ela deseja, logo é rotulada; se não deseja, é objetificada como “frigida”. Beauvoir dizia que “fazer-se objeto, tornar-se passiva, é completamente diferente de ser um objeto passivo”. O estigma produz efeitos reais: estudo aponta que pessoas em NM relatam menor confiança em profissionais de saúde, mais ocultação do relacionamento e maior risco à saúde emocional em contextos de discriminação.
A virada política
Optar por um relacionamento aberto ou poliamoroso, ou por explorar sua bissexualidade de forma livre, pode sim ser um ato político. Não porque o erotismo seja necessariamente política, mas porque ele atua sobre os corpos, os papeis de gênero e as estruturas de poder. É uma afirmação de que a mulher não precisa mais se encaixar no molde que lhe foi imposto.
Se Simone de Beauvoir nos ensinou que “one is not born, but rather becomes, a woman”, ou seja, que a feminilidade, e com ela os papéis de gênero, são construções, então podemos também afirmar que a sexualidade, os vínculos afetivos e o modo de amar são escolhas que operam dentro (e contra) essas construções. Quando uma mulher decide amar de forma aberta, explorar a pluralidade de desejos ou viver sua bissexualidade sem culpa, ela está dizendo: “eu escolho, eu sou agente do meu amor”. E essa escolha incomoda porque desafia o status quo. O homem que “vira pegador” ou “tem várias mulheres” é celebrado ou tolerado porque ele permanece dentro da lógica patriarcal. A mulher que faz o mesmo estourou o script e por isso é avaliada com lente diferente.
Acima de tudo, esse debate nos lembra que cada pessoa merece liberdade para definir seu próprio tipo de relação com consciência, respeito e escolha e que julgar ou moralizar a mulher por optar por algo diferente é manter viva a opressão que Beauvoir denunciou. O que faz da liberdade afetiva algo apenas individual? O fato de que ela exige contexto social, apoio e comunidade para se sustentar. E isso começa com o reconhecimento de que amar também é escolher por si e para si.

[Foto: Simone de Beauvoir, em retrato de Henri Cartier Bresson, 1945, Magnum, Paris]

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