
Quando a vida amorosa desafia dogmas e expõe as fissuras da monogamia
Esses dias me deparei com uma história que parece saída de um roteiro ousado, mas que é tão real quanto a vida cotidiana: a de Emerson Rogério de Souza, ex-padre que trocou o celibato pelo poliamor e hoje vive um trisal em Araçatuba (SP). Aos 51 anos, ele divide a casa, as tarefas e a cama com Daniela, sua esposa há 26 anos, e Camila, sua segunda parceira. Ao G1, Emerson afirmou: “A gente está falando de amor. Cristo em momento algum proibiu nada, desde que você ame o próximo como a ti mesmo.”
Essa frase ecoa como um convite à reflexão sobre o que entendemos por amor. Será que amar precisa estar restrito à exclusividade? Ou será que insistimos na monogamia por uma convenção cultural que, no fundo, nunca deu conta da complexidade dos desejos humanos?
Simone de Beauvoir já nos alertava, em O Segundo Sexo, que o amor, no modelo tradicional, muitas vezes aprisiona a mulher num papel de posse e dependência, onde a fidelidade é cobrada como dever, e não vivida como escolha. Ao mesmo tempo, Zygmunt Bauman, em sua análise sobre a modernidade líquida, descreve como os laços afetivos se tornaram mais frágeis, flexíveis e mutáveis, acompanhando a fluidez do nosso tempo.
A experiência de Emerson parece unir essas duas visões: rompe com a rigidez da monogamia, mas busca, no poliamor, uma estrutura estável, compartilhada e transparente. Não é a liquidez da substituição constante, mas uma nova forma de durabilidade, construída a partir da aceitação de que múltiplos vínculos também podem ser amorosos e legítimos.
O ex-padre traz outro ponto provocador: o entrelaçamento entre fé e desejo. Para ele, Cristo não negou o amor múltiplo, apenas defendeu que este fosse vivido de maneira ética, sem desrespeitar o próximo. A visão confronta séculos de tradição religiosa que moldaram corpos e sexualidades com base na culpa. Quando Emerson diz que o ser humano “não é monogâmico por essência”, ele nos convida a revisitar uma pergunta antiga: existe uma essência do amor ou apenas construções sociais que tentamos naturalizar?
Seja monogamia, poliamor, trisal ou qualquer outro arranjo, a grande questão não está na forma, mas no fundo: o respeito mútuo, o consenso e a liberdade de viver sem máscaras. O caso do ex-padre nos lembra que amar também é um ato político porque desafiar convenções e viver em verdade ainda é visto como transgressão. E aí, fica a pergunta: estamos preparados para aceitar que o amor pode ter mais de uma forma, mais de um corpo, mais de uma narrativa?