No universo dos relacionamentos não-monogâmicos, os limites são traçados a partir do diálogo e da confiança, sim, também há traição quando esses limites são rompidos.

Recebi recentemente o relato de uma moça que vive um relacionamento liberal com o parceiro. Ela contou que sempre fizeram tudo juntos, desde as primeiras experiências até a participação em festas do meio. No entanto, sentiu-se profundamente abalada ao flagrar o namorado flertando com outra mulher via Instagram, mais especificamente, comentando emojis sugestivos e trocando mensagens com uma influencer. A dúvida que surgiu imediatamente foi: isso é traição?
Essa pergunta é mais comum do que parece. Vivemos uma época em que os relacionamentos se diversificaram, os formatos se reinventaram e, com isso, também se multiplicaram os dilemas sobre constituindo, ou não, uma quebra de confiança. Em relacionamentos tradicionais, o conceito de traição é muitas vezes associado exclusivamente ao ato sexual. Já nas relações liberais, não existe um padrão único, o que rege a relação é o que foi acordado entre o casal.
Se há uma máxima nesse tipo de relação, é a de que tudo que foge ao combinado pode, sim, ser considerado traição. A traição não está necessariamente no ato em si, mas na violação de um pacto construído com base na comunicação clara e no respeito mútuo. Se o casal havia estabelecido que qualquer interação com terceiros seria feita de forma conjunta e transparente, iniciar conversas privadas e flertar por redes sociais configura, sim, uma quebra de contrato.
É importante destacar que o flerte, por si só, não é algo proibido ou errado. Para muitos casais, inclusive, ele pode ser parte do jogo, da sedução e até da liberdade individual. Mas quando há um acordo específico que estabelece como isso deve ocorrer, qualquer desvio, mesmo que virtual ou aparentemente inofensivo, pode gerar dor, insegurança e ressentimento. Isso vale tanto para quem vive um relacionamento aberto quanto para casais monogâmicos: o que está em jogo é o pacto, e não o modelo relacional.
Assim como em qualquer outro tipo de relação, a confiança é o alicerce do amor livre. Quando ela é abalada, o melhor caminho é o diálogo. Ao invés de guardar o incômodo ou transformar a dor em acusações, é fundamental abrir espaço para conversas honestas: “O que eu senti?”, “Por que isso me feriu?”, “O que podemos mudar daqui para frente?”
Em última análise, o problema não é flertar. O problema é quando se flerta fora dos termos acordados, sem o consentimento do outro, rompendo a base de segurança emocional que sustenta qualquer relacionamento saudável.
Fica o convite à reflexão: o quanto estamos preparados para conversar sobre nossos desejos e limites Porque, no fim das contas, um relacionamento liberal só é verdadeiramente livre quando é também profundamente responsável.
Se você vive algo parecido, fale, se escute, e lembre-se: o combinado não sai caro, mas ignorá-lo, sim.

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